Narcisismo e a Impossibilidade do Amor

Muitas pessoas recorrem à terapia por se sentirem sozinhas ou incapazes de encontrar alguém para estabelecer uma relação amorosa. Outras assumem que não desejam estar em relação, não acreditam no amor, ou investiram em relações que as deixaram ainda mais frustradas e desacreditadas na possibilidade de amar alguém. Um jovem paciente chegou-me mesmo a dizer que não sabia o que era o amor já que nunca tinha estado apaixonado e agora numa tentativa de relação não sabia como identificar o sentimento amoroso.

Num mundo pautado pelo individualismo, competitividade e pelo sucesso profissional, o Outro surge muitas vezes como acessório ou para cumprir uma função do Eu. As pessoas procuram outras para não sentir a solidão, para confirmar a sua verdade, para ter sexo, para ser admiradas, para ter poder e ser objecto de inveja dos demais, para dormir acompanhadas, para não sentir angústia, para imaginar que têm uma relação.

Esta é a sociedade dita narcísica em que a procura do Outro se traduz na procura da satisfação do Eu, na medida em que esse Outro não tem existência para além de o servir ou ser uma extensão dele próprio. A relação em que o Outro está ao serviço do Eu revela sempre um Eu frágil, desempoderado internamente, cujas falhas no desenvolvimento são mascaradas por fantasias de omnipotência e sentimentos de superioridade face ao Outro. Esta condição nem sempre é exibida sob a forma de vaidade ou arrogância como é frequente descrever as pessoas narcísicas. Outros sintomas denunciam o narcisismo patológico – a falsa-modéstia, falta de empatia, uma grande susceptibilidade a qualquer tipo de rejeição evitada a todo o custo com manobras ardilosas em que o sujeito narcísico procura deixar o outro refém da relação – a pensar nele sem lhe dar nada em troca.

A capacidade de amar da pessoa narcísica é projectiva e ilusória, resumindo-se por vezes à conquista de alguém que desafia a necessidade de confirmação do sujeito narcísico. Uma vez conquistado, o objecto de amor é desvalorizado e o amor é vivido de forma temporária. Rapidamente surgem justificações para abandonar a relação. Frases como “afinal eu não estava preparado”; “por muito que tente eu não consigo”; “sinto que não és a pessoa certa para mim” são invariavelmente formas de boicote tais como o envolvimento simultâneo ou a fantasia permanente com outras pessoas, reveladores da insatisfação do Eu consigo próprio e a procura incessante de corrigir a falha que não se quer sentir ou que não se sente.

Tal como no mito grego, Narciso, cuja beleza era objecto de desejo e admiração de homens e mulheres, acaba por se apaixonar pela sua imagem quando a vê reflectida na água, acabando por perecer ao ficar refém do seu reflexo. No local da sua morte apareceu uma flor que recebeu o seu nome, dotada de uma beleza singular, porém narcótica e estéril como o amor narcísico.

Na verdade, o amor narcísico traduz a falta de amor por si mesmo (falta de auto-estima) e é o resultado dum complexo de interacções falhadas com os cuidadores. Os teóricos que se dedicaram ao estudo do narcisismo diferem nas interpretações das causas desta existência falhada. Para Heinz Kohut, os cuidadores operam funções vitais tais como espelhar a necessidade fundamental da criança de se sentir aceite e valorizada – por exemplo quando uma mãe diz ao bebé que ele é o mais lindo do mundo (ou fá-lo sentir enquanto tal ao sorrir maravilhada para este) – um sentimento de grandiosidade e perfeição é internalizado pela criança como valor intrínseco. Outra função parental consiste na criança fundir-se com alguém idealizado (por exemplo a figura do pai sentido como omnipotente) que promove o sentimento de segurança e amparo. Kohut referiu ainda a função gemelar relativa à necessidade que todo o indivíduo possuiu de sentir uma semelhança essencial com o Outro – por exemplo o menino que quer imitar o pai a barbear-se, ensaiando ser igual ao pai. Este tipo de experiências estimula a criança a sentir-se compreendida e capaz de compreender o outro, o que estaria associado a um sentimento de pertença e à necessidade de identificação e proximidade com o Outro.

À medida que a criança se desenvolve vai tolerando maior distância da mãe e do pai e aceitando outras pessoas como avós, professores ou amigos que reforçam estas funções internas de regulação da auto-estima, auto-confiança, competência e empatia. Num desenvolvimento saudável, o grau de dependência do Outro para cumprir estas funções vai diminuindo à medida que a estrutura do indivíduo se consolida. O Outro é gradualmente sentido como diferente de nós, mas esta condição não se torna ameaçadora porque a pessoa se sente internamente competente e consequentemente menos dependente de alguém para se validar ou sentir-se importante ou especial.

Numa outra óptica, o psicanalista Herbert Rosenfeld conceptualizou que aceitar a dependência do Outro implica ter a capacidade de amar e reconhecer o seu valor e bondade. Falhas consistentes na relação dos cuidadores com a criança induzem a antecipação dos sentimentos de ódio, frustração e abandono que o Eu procura evitar supervalorizando-se face ao Outro e erguendo defesas que evitam toda e qualquer evidência de separação. Para o narcisista, a existência duma pessoa separada dele que o amasse pressuporia sempre a possibilidade desta o abandonar ou mesmo de o aniquilar.

Nesta perspectiva, a relação com a pessoa narcísica é uma relação destinada ao fracasso porque esta não reconhece a existência do Outro enquanto alguém diferente e capaz de amar. O narcisista vê no outro projecções de partes de si próprio ou fantasias omnipotentes que procuram colmatar os vazios do seu desenvolvimento. No narcisismo patológico, as fronteiras entre o Eu e o Outro são dissolvidas ao ponto de Um ser o Outro e de deixar de haver distinção entre o Eu e o Outro. Exemplos destas situações são as relações em espelho, nas quais as pessoas procuram outras muito parecidas consigo que espelhem e colmatem este sentimento de insuficiência. Noutros casos, o sujeito procura alguém importante ou visto de forma idealizada para se apropriar destas mesmas qualidades ao fundir-se com o Outro.

 

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