Relação, Arte, Resistência e Adesão

Uma das questões mais presentes no contexto da terapia quer individual quer de casal é a pergunta: Afinal quem é esta pessoa com quem eu tento relacionar-me e muitas vezes não compreendo, que me leva por vezes a sentir atraído, por vezes frustrado e a questionar sobre quem sou e porque estou nesta relação?

Recentemente participei num seminário de artes performativas, o Seminário Nómada orientado por Rui Mourão e Telma João Santos na Galeria Hangar. Em dado momento pedia-se para olhar uma pessoa desconhecida nos olhos durante um minuto sem nada dizer. Aquele exercício bastante simples acabou por me suscitar diferentes questões sobre a dinâmica interna despoletada pelo olhar do outro que variavam entre a consciência de mim próprio e a tentativa de leitura ou mesmo de fantasia sobre quem seria afinal aquele outro desconhecido. O que estava a acontecer, ali mesmo, quando dois olhares se cruzam no meio do mundo? Para além destes fenómenos aparentemente conscientes, uma outra panóplia de sensações, ideias ou emoções surgiam sem controlo ou explicação. Aquele olhar íntimo do outro desconhecido desencadeava uma resposta emocional e momentos vários necessariamente reveladores de mim próprio mas também possivelmente universais.12419142_225192611174790_8681540504518902053_o

Essa universalidade talvez tivesse sido a razão do sucesso da intervenção da artista Marina Abramovic em 2010 no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque em que filas de centenas de visitantes aguardavam para estarem sentados um minuto com a artista, olhos nos olhos, sem nada dizer.

Afinal, o que acontece no espaço entre duas subjectividades construídas de tantos pedaços de modelos culturais, normas sociais, sensações corporais, relações primárias familiares, relações de poder?!!! E ainda referências soltas sem ligação perdidas no espaço do inconsciente.

Outros exercícios do mesmo seminário obedecendo a princípios semelhantes levaram-me a observar alguns fenómenos que estão de facto presentes na forma como nos relacionamos a um nível íntimo ou mesmo a um nível mais superficial. Um primeiro binómio é a Resistência e a Adesão. Talvez mais defensiva, a Resistência a deixar entrar o outro ou a querer entrar no espaço do outro, parece quase inerente a um sentimento de protecção ou preservação do Eu e ou mesmo de medo ou receio. Será o medo de não sobreviver psiquicamente ou fisicamente à entrada do outro ou à perda devastadora do mesmo e do sentido e significado em que a relação se constituiu dentro do Eu?

Por outro lado, há uma curiosidade pelo outro, um desejo de ligação, de fascínio [?] de conforto [?] de espelhamento [?]  de competição ou de cooperação [?]… Ronald Fairbairn foi o primeiro a abrir caminho para a intersubjectividade na psicanálise quando contrariou a teoria freudiana das finalidades libidinais associadas a zonas erógenas do corpo e sugeriu que a finalidade libidinal tem como objectivo o desejo de relações satisfatórias com o outro. Citando o mesmo autor, actividades anais, urinárias ou mesmo o acto de vomitar “não seriam mais do que a rejeição de objectos, que sob o ponto de vista do organismo, constituem corpos estranhos”. Em certas situações queremos mesmo vomitar partes do outro ou de nós próprios, emoções negativas que dificilmente toleramos ou não queremos experienciar outra vez. No entanto, regra geral, prevalece o desejo de Adesão ao outro, ou melhor dizendo, ficamos desafiados pela subjectividade do outro, procuramos estabelecer relação.

Penso que nas formas artísticas este desafio está sempre presente, eu só me interesso por algo que me desafia o olhar ou qualquer outro sentido, que me faz reparar em qualquer coisa que eu não havia notado, que me faz re-pensar ou repensar-me, que me surpreende e que de alguma maneira me fascina.

Será que nas relações se passa algo de semelhante? Eu interesso-me pelo forma como o outro me desafia, surpreende e fascina? Ou será o desejo de continuidade enunciado pelo filósofo Georges Bataille que me leva a querer transgredir os limites do meu espaço individual de forma a deixar-me imergir no espaço do outro?

Parece-me verdade que a dado momento existe na relação um desejo de imersão, desejo dum contacto sem resistência, como sugeria o especialista em Terapia de Casal e Familiar, David Scharnch, o tempo de abraçar alguém com força até relaxar diz muito sobre a forma de como estamos na relação. Talvez esses momentos não possam ser muito longos mas é na confluência das duas subjectividades, dos momentos de imersão, que parece surgir algo de profundamente diferente, novo, que regenera em lugar de destruir, que acrescenta e que dá novo significado e justifica o desejo de relação.

Por último, é importante ressalvar que nem sempre é assim, que na intersubjectividade também podem surgir desejos negros de aniquilação do outro, controlo ou submissão, inveja, crueldade, morte e destruição. Mas estes desejos negros são os que precisamos de conhecer para controlar, desfazer e dar lugar à uma relação complementar, assimétrica, mas satisfatória, lugar último e primeiro da criatividade e da criação.

No Seminário Nómada foi salientada a intersubjectividade entre o artista e o espectador na definição do que é o objecto artístico ou ainda na intrincada e complexa rede de relações de poder inerentes à produção e apresentação das obras de arte. Na terapia como no real, a intersubjectividade é onde acontece a possibilidade de transformação do sujeito ao desenvolver, através da abertura ao outro, capacidades que modificam a realidade frustradora.

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