A Defesa do Perfeccionismo

Caro Rui,
Sou uma jovem de 28 anos o meu companheiro tem 29, conhecemo-nos desde os 11 anos de idade, temos uma amizade muito bonita, só namoramos à 8 anos e vivemos juntos à 4…parece uma escala cronológica:-)
A questão é: eu tenho receio de ter parametros demasiados altos e do meu companheiro não conseguir estar à altura dos mesmos… ou sou eu que inconscientemente estou arranjar desculpas para que o meu companheiro não tenha que dar o litro na nossa relação… sou demasiado exigente por desejar o melhor para mim ou demasiado irrelalista por não conseguir simplesmente desfrutar do que ele tem de bom???


Costumo pensar pra mim mesma que ele tem “material” para marido e consigo facilmente imaginar-me casada com ele (não sou católica, acredito racionalmente no compromisso do casamento, na dedicação ao outro) o meu cérebro sabe que ele é perfeito e será o melhor pai que eu poderia escolher para os meus filhos, mas a minha alma está constantemente a pedir-me para ser amada alimentada… com atenção, com carinhos, com palavras.. são coisas de mulher ou é um sentimento honesto???
Às vezes chego a sentir-me envergonhada comigo mesma por ter um homem tão bom e ainda estar a “exigir” que ele seja romântico e sensivel, mas outras sinto-me revoltada por saber que está ao alcance dele “dizer que me ama” e que não o faz por opção.

Olá Sofia, a problemática que descreve tem a ver com a Sofia colocar a fasquia demasiado alta para si e para o seu companheiro. Por outras palavras, a Sofia tem um lado perfeccionista que normalmente resulta do desejo de que os outros gostem de nós porque não gostamos suficientemente de nós mesmos.

O que está subjacente a esta defesa é qualquer coisa como: se eu for perfeito vão seguramente gostar de mim ou será quase impossível não gostar de mim, logo eu terei a atenção e validação de que estou carente. Por essa razão, na última parte do mail, a Sofia deseja que o seu companheiro expresse o amor que tem por si e que seja romântico e sensível. A Sofia procura que o seu companheiro a veja emocionalmente e demonstre gostar de si para que a Sofia se sinta melhor consigo mesma.

Repare, com tantos anos de relação ainda não está segura dos sentimentos do seu companheiro por si? Ou precisa que ele os demonstre continuadamente? Por outro lado, esta estratégia agradativa é expressa através dum desejo omnipotente porque obviamente ninguém é perfeito, e como tal, para além de ser uma forma de pressão sobre si própria e a relação, acaba normalmente por em algum momento fracassar, quanto mais não seja pela ansiedade que produz.

A procura da pessoa perfeita não é mais do que uma projecção da sua nossa própria vontade de sermos perfeitos, porque na verdade nos sentimos demasiado imperfeitos. A fantasia do companheiro perfeito pretende preencher o vazio afectivo que resulta da falta de gratificação narcísica durante o crescimento. Contudo, esta defesa acaba por impedir uma melhor aceitação das vulnerabilidades do outro como as de nós próprios, dificultando o compromisso com o outro e a construção da intimidade. O outro nunca parece ser suficientemente bom porque eu idealmente gostaria de ser perfeito e estar em relação com uma pessoa perfeita que reforce a minha idealização. Desta forma, estabelece-se uma insatisfação constante com o próprio e com o outro, destrutiva tanto do eu como da relação.

Procure amar-se a si própria e ao seu companheiro sem ter que medir o amor através das qualidades infinitas dum marido ideal que não é mais do que uma projecção do seu eu ideal. Afinal todos somos bastante imperfeitos e não é isso que nos impede de amar e ser amados!

Anúncios

2 thoughts on “A Defesa do Perfeccionismo

  1. Bom dia Drº Rui, gostava que o senhor me aconselhasse sobre uma situação que agora tomei conhecimento.
    Tenho um filho de nove anos e está començando á dar problema na escola.
    Do tipo que quando a professora lhe chama a atenção vem uma fúria e um nervosismo que não admite que ela o corrija de modo algum.
    Ela me contou que quando ela chama lhe a vossa atenção ele quer jogar os livres e os bate nas mesa.
    E num outro dia estava no intervalo escolar e ela observou que ele estava num bailoço e pegava o banco do mesmo e forçava do tipo que ia bater no cão mais não batia. Diz a professora que lhe perguntou o que se passava,e ele respondeu que não era nada mais que tinha vindo uma ideia em sua cabeça.
    Tenho de lhe dizer que tenho um esposo muito problematico,ele veio de um casamento falhado,com uma filha que nunca sobre dar o apoio paternal isso por intervenção de sua progenitora,e esta filha não quer ver o pintado de ouro em sua frente,pois ele se separou de sua mãe!!!!
    O menino participa de tudo em casa pois ele vive em nosso meio sem ter mais criança.
    Certo dia o seu pai levantou a mão para mim como se estivesse possuido,eu reagi e devolvi, mais reclamei muito sobre o assunto.Ele foi criado por mim até os 6 anos e sei que a referencia dele sou eu,nunca que ele tinha visto uma cena daquela,imaginei que ele tinha esquecido más ele nunca esquecerá,pois acredito que seja este o motivo de ver a mama que ele ama tanto ter passado por isso e ter ficado quieta e não ter ido embora.Sei que na hora da raiva e do nervosismo pela situação que seu pai passada, ele fez isso sem pensar,concordo que foi errado mais também eu o provoquei mesmo não dando direito de um homem bater em uma mulher nem com uma flor.
    Agora doutor lhe pondo um pouco a par da história gostava de saber como eu poderia proceder em tal caso.
    Vou a vossa clinica ou aqui no Porto especialistas,é uma coisa grave ou não????
    Eu sei que tudo o que passa em relação aos sentimentos quando tratados podem futuramente ser grave.
    Pufavor me de uma Luz ou possível solução para meu pequeno.

    Abraço Grande e fique com Deus.

    Cristina Tandelo

    • Cara Cristina, pela sua descrição parece-me melhor que consulte um psicólogo ou psicoterapeuta especializado em crianças. Não quer dizer que a situação seja grave, as crianças muitas vezes tornam-se agressivas para expressar vários tipos de sentimentos que poderão ir da zanga à triteza ou excitação. É possivel que estas reacções muito fortes fortes a um figura de autoridade como a professora possam reflectir algum conflito decorrente do ambiente familiar que descreveu mas esse diagnóstico precisa de ser feito por um técnico com todos as informações necessárias. Não fique preocupada porque a terapia com crianças é muito eficaz se fôr realizada por uma pessoa competente. Nestas situações o acompanhamento da criança e dos pais pode providenciar melhorias significativas a curto prazo.

Os comentários estão fechados.