Sexualidade Feminina e o Cisne Negro

Numa altura em que a sexualidade feminina parece ter-se tornado num apetecível objecto da comunidade científica e dos media, o filme  Cisne Negro confronta-nos com algumas questões do desenvolvimento sexual das mulheres recorrendo ao ballet clássico como metáfora perfeita do controlo castrador do corpo.

Embora não sendo a questão central da história, a sexualidade de Nina, a bailarina escolhida para desempenhar o papel duplo dos cisnes branco e negro, acaba por ser o maior obstáculo à sua capacidade de interpretar o cisne negro que, na versão do bailado, consegue seduzir e enganar o príncipe, levando-o a trair o juramento de amor com o cisne branco, figura simbólica do amor puro, monogâmico, que assim sucumbe às forças do mal, representado na capacidade sedutora e destrutiva do cisne negro.

A história do bailado tem de facto uma analogia com uma determinada visão da sexualidade da mulher que ainda perdura hoje. A mulher pura e casta que guarda a sua sexualidade intacta é punida pela mulher sexualizada, destruidora do amor. A história do cinema está repleta de referências a estas mulheres cuja capacidade sedutora está irremediavelmente ligada à destruição da vida, dos homens e das mulheres que representam o papel socialmente desejável ou em termos genéricos, o bem (social). São exemplos desta representação do feminino, os clássicos que marcaram as gerações dos anos 50 e 60, Esplendor na Relva, Um Eléctrico Chamado Desejo ou Tudo sobre Eva, entre muitos outros.

Não é por acaso que o argumentista escolheu O Lago dos Cisnes para ilustrar a perturbação do desenvolvimento de Nina, cativada na relação com uma mãe psicótica. O conflito entre a estrutura mental rígida derivada da relação com a mãe e as exigências do coreógrafo, representativas do poder do homem, da sexualidade e do perfeccionismo da dança, levam Nina a um stress emocional extremo, potenciador de sintomas psicóticos que a acabarão por destruir. Ao longo do filme, Nina sofre de alucinações que gradualmente invadem o real, destrutivas do eu e dos seus rivais arcaicos (as colegas e a mãe), colando-se assim à personagem do cisne branco e à história do bailado.

Embora exista um corpo de literatura científica que de forma consistente aponta para a predisposição genética no desenvolvimento da esquizofrenia, o stress psicológico continuado causado por factores sociais e familiares parece ter um papel preponderante na produção das patologias psicóticas.

A mãe controladora que procura cristalizar a relação com a filha e impedi-la de crescer, sexualizar-se e assim rivalizar consigo, remete-nos facilmente para o nosso referencial cultural onde as mães ultra-protectoras retêm o desenvolvimento da sexualidade dos seus filhos dando origem a tantos casos de anorexia, bulimia, disfunções sexuais, bem como falta de auto-estima, auto-confiança e especialmente a sensação de permanente inadequação perante o real.

Por mais que tente, Nina sente-se sempre angustiada pela sua imperfeição e perseguida pelo desejo de ser perfeita e assim obter o reconhecimento de si mesma, através dos outros. Por outro lado, Nina sente-se desadequada perante os outros, que estranham a ausência de desejo e a falta de competências sociais da bailarina.

O meio da dança não é somente retratado como potenciador da patologia mas essencialmente como espelho desta. O controlo escrupuloso do corpo, a idealização deste, o perfeccionismo na execução, são metáforas da estrutura interna de Nina, decorrentes da falta de gratificação narcísica. As estratégias de controlo da mãe como as da dança são internalizadas por Nina na sua busca da perfeição.

Para sentir prazer ou ultrapassar os seus medos, Nina precisa de se descontrolar e transgredir a sua estrutura, transformando o real nas suas fantasias e alucinações. Quando tenta explorar a sexualidade, Nina fá-lo de forma desorganizada e polimórfica. A retenção do desenvolvimento sexual potencia o seu lado auto-destrutivo, quando contraposta à colega, aparente rival (representação do cisne negro), que possui uma sexualidade integrada, objecto de inveja e de fascínio.

Desta forma, o filme inverte de alguma maneira a representação clássica da sexualidade da mulher enquanto destruidora do bem. O cisne branco acaba por ser vítima da sua assexualidade e da sua desconexão com o real. Nina não está longe do que muitas mulheres sentem relativamente à sexualidade, o medo terrível de perder o controlo. A entrega ao outro é assim subentendida como uma forma sublimada de auto-destruição.

Anúncios

6 thoughts on “Sexualidade Feminina e o Cisne Negro

  1. Olá.

    Cheguei aqui pelo facebook e comento o que comentei no mural da amiga que me fez cá chegar.

    Considerando o tema e o texto muito interessantes, parece-me demasiado simplista chegar do “Cisne Negro” à afirmação de que “mães ultra-protectoras” fazem pessoas com comportamentos auto-destrutivos. Sem querer entrar na questão da interpretação do filme, penso que falta justificar esta afirmação, primeiro definindo o que é uma mãe ultra-protectora e depois apresentando dados que, pelo menos, mostrem que, de facto, é assim. Basta que haja um caso de alguém que é anórectico, bulímico ou outro, mas não teve uma mãe super-protectora para que não seja legítimo fazer essa afirmação. Penso que haverá muitas pessoas nestas condições…

    O que me incomoda na facilidade de fazer este tipo de afirmação é a maneira simplista como se retrata o comportamento e as questões psíquicas. Há demasiadas variáveis envolvidas na constituição de uma personalidade. A simplicidade com que estas variáveis complexas são reduzidas à imagem da “má mãe” é, para mim, tão preocupante como é para o autor a redução do comportamento sexual feminino à boa ou má mulher.

    Os meus cumprimentos,
    m

    • olá M, se existe alguma generalização em psicologia clínica comumente aceite por todos os modelos teóricos é que as estratégias parentais são determinantes na formação da personalidade e estrutura psicológica da pessoa desde os primeiros anos de vida. A psicanálise sempre o disse e a Teoria do Apego (Attachment Theory de Bowlby) veio comprová-lo exaustivamente de forma empírica. A mãe “ultra-protectora” não é mais do que uma tradução livre da “overprotective mother”, a mãe excessivamente protectora e controladora dos filhos (óbviamente que também pode ser o pai!). Esta estratégia parental impede a criança de se desenvolver de forma saudável ao limitar de forma severa a sua autonomia e a necessidade da criança validar-se a si própria e ao seu comportamento (por ex. responsabilizando-se por este) sem que a mãe a substitua ou inviabilize esta validação. Esta estratégia torna-se particularmente grave durante a puberdade e adolescência, quando o adolescente necessita do seu espaço privado para explorar uma identidade autónoma e a sexualidade. O carácter intromisso da mãe controladora tem um impacto muito negativo na auto-estima e auto-confiança dos filhos bem como, e de forma extremamente grave, na sensação de permanente inadequação perante o real. Infelizmente, este é um estilo parental que ocorre com demasiada frequência em Portugal e tem um peso significativo no desenvolvimento de vários tipos de perturbações. Não se trata aqui de encontrar causas lineares, esse tipo de racíocinio como diz e bem não faz sentido em psicologia, as abordagens deverão ser sempre multidimensionais e multifactoriais. Contudo, se analisarmos muitas das perturbações alimentares e sexuais elas replicam estratégias de controlo do corpo e impedem o desenvolvimento duma sexualidade saudável e a afirmação duma personalidade e identidade autónomas libertas do controlo parental e de certos constructos sociais.

      O meu objectivo com este texto é de reflectir sobre a forma como a sexualidade feminina é representada no filme e possíveis significados dessa representação, nunca fazer qualquer tipo de juízos de valor sobre conduta sexual ou reduzir a uma visão clivada deste. Por outro lado, como o Hugo refere, procurei simultaneamente ensaiar uma hipótese de interpretação da psicopatologia da personagem do filme com base no argumento, na literatura científica e na minha experiência clínica, apontando para vários factores necessáriamente concorrentes duma patologia tão complexa como a esquizofrenia.

  2. M,
    Ao que me parece depois de ler o texto, o autor aponta a mãe ultra-protectora como um dos factores para o comportamento da personagem. Não me pareceu usar a mãe como factor culpabilizador e muito menos cingir questões como desordens alimentares ou perturbações sexuais à relação parental (se bem que também concordo ser absolutamente determinante). Vai-me desculpar, mas deu-me a sensação de ser uma leitura algo enviesada da perspectiva (haverá n outras, decerto) que o autor dá sobre esta temática, não esquecendo que o artigo remete, obviamente para o contexto específico da personagem de um filme e da espelhagem que isso poderá ter na vida real.

    Cumprimentos.

  3. Quero parabenizar Ruy Fereira Nunes pela brilhante percepção. Sou filha de uma mãe controladora que me desestabilizou, me destruiu, me anulou…
    Culpo ela por tudo de ruim em minha vida.
    Tenho certeza que a sensação de me sentir sempre inadequada me trouxe TOC.
    As mães precisam ser orientadas nesse sentido, gente!
    Não quero que ninguém passe por isso. Não desejo ao pior inimigo essa sensação de inadequação, prisão, frustração…

  4. Parabéns pelo texto, Ruy! Excelente interpretação do filme e da personagem Nina. Não acho que generalizou quanto à questão das mães superprotetoras/ controladoras.

Os comentários estão fechados.