Angústia de Morte e Confinamento

Manter o outro no lugar do desejo e não do medo

A pandemia do Covid 19 e o confinamento obrigatório têm levantado inúmeras questões psicológicas e sintomatológicas que vão desde estados depressivos a irritabilidade, de obsessões hipocondríacas a uma moralidade punitiva face aos que não cumprem as regras do confinamento que não parece ser mais do que o desejo primitivo da proteção e sobrevivência da comunidade face a uma ameaça de aniquilamento ou desagregação social. Perante os vários sintomas, cada um tem encontrado diferentes maneiras de gerir o seu quotidiano seguindo os conselhos à la carte publicados todos os dias online ou na televisão ou melhor ainda confrontando-se consigo mesmo na solidão ou no espaço contíguo da relação. As relações e a separação do outro surgem agora com outro significado. Por um lado, as relações que sobrevivem à epidemia parecem ser as que nós realmente desejamos ou se têm constituído como suportes do nosso Eu face a uma realidade externa instável e neste momento ameaçadora. Outras relações surgem no mundo interno como resquícios do que já foram, evocam lembranças distantes, obviamente afetivas, algumas de sabor amargo mas na maioria dos casos com um sabor agridoce, objetos de lutos mal resolvidos, familiares que perdemos o contacto ou pessoas com quem simplesmente deixamos de compartir a nossa vida mas em que em um determinado momento foram importantes e significativas.

Um dos meus pacientes, retirado numa casa de campo, confessava como finalmente tinha entrado em contacto com o seu Eu mais íntimo. Despido do stress do dia-a-dia, sem preocupações de trabalho, procurava perceber quem realmente era. Sem necessidade de agradar ou querer parecer um outro, sentia-se extremamente confortável neste ninho de clausura e meditação, sentia-se livre, podia agora reconstruir-se a partir de dentro para fora, talvez encontrar o Amor Fati de Nietzche ou seja a aceitação integral da vida e do destino humano nos seus aspetos mais cruéis e dolorosos mas com alegria de viver, dançando sobre o abismo da existência humana na ausência de qualquer proteção divina. Para Nietzche, Amor Fati ou Amor ao Destino, implicaria uma aceitação de tudo o que nos foi dado e retirado, já que faria parte dum contínuo natural em que nada poderia ter sido diferente e como tal não valeria a pena queixarmo-nos ou ficarmos ressentidos. Em lugar do lamento, venceria a vontade de enfrentar a vida sem receio de qualquer dissabor, mesmo em momentos de desespero. Tornarmo-nos assim profundamente ligados ao que somos porque é exatamente aquilo que poderíamos ser.

Talvez de forma não consciente os idosos que querem sair de casa estão a cumprir o seu Amor Fati, já compreenderam e aceitaram uma certa iminência do destino perante a proximidade da morte e procuram evitar a angústia deste desamparo ou até uma angústia mais objetiva da solidão a que estão remetidos em muitos casos ou foram forçados pelas ordens das autoridades sanitárias e dos seus familiares. Para Freud esta angústia do desamparo era na verdade uma angústia de morte.

Em 1926, Freud escreveu um artigo intitulado Inibição, Sintoma e Angústia em que apresentou o que se veio a denominar a segunda Teoria da Angústia. Se na primeira teoria Freud elaborava sobre a angústia resultante dos conflitos internos que implicavam a repressão de determinados materiais psíquicos, nesta segunda Teoria da Angústia, o perigo sentido na realidade externa no passado, no presente ou no futuro, passa a consubstanciar-se em sintomas, inibições e angústia. O aparecimento da angústia seria resultante duma ameaça externa que paira sobre o sujeito, movendo-se entre uma ameaça de castração ainda ligada ao Complexo de Édipo, a ameaça do pai castrar o filho que seduz a mãe e uma ameaça de separação cujo protótipo é a angústia do nascimento. Em qualquer dos casos é uma angústia de morte e é uma angústia circulatória dentro da mente, move-se na relação com o outro, na relação com a realidade e na relação interna do Eu com todos estes aspetos.

Esta angústia circula de um lado para outro sob a forma de inibição e de sintomas e acaba por ganhar o estatuto de fantasma ou fantasia. Existe um objeto hostil, neste caso um vírus que ganha o estatuto de fantasma que nos inibe e nos torna fóbicos por ódio e por medo. Para alguns, a aproximação do outro causa angústia porque surge sob a forma dum fantasma, uma ameaça de morte que o Eu procura evitar. Freud estabelece pela primeira vez uma relação entre a fobia e a percepção, se eu vejo alguém aproximar-se e esta pessoa pode conter o vírus (o fantasma) então é melhor eu afastar-me para evitar em última análise perecer. Passa a haver uma relação fundamental entre o ver, o pensar e o existir.

Freud foi o primeiro a perceber a angústia do estranho quando definiu que a angústia da separação era o não reconhecimento do familiar. Quando a mãe se afasta do bebé este sente esse afastamento como um perigo. A mãe já não é um objeto fiável e passa a ser um objeto de ameaça que pode ir sem se saber se volta.  A mãe que era o protótipo de objeto de satisfação torna-se num objeto de paranoia, num objeto traumático. Se na separação o sujeito fica à mercê do perigo, do não familiar, do estranho, na relação com o que era de confiança e deixou de o ser, o outro passa a ser um objeto traumático que ameaça destruir-nos ou deixar-nos à mercê da destruição do fantasma.

Parece então que só nos restam duas alternativas, inibir todas as nossas ações (ou parte delas) de forma a evitar o estranho e os fantasmas que este representa (situação atual do confinamento) ou enfrentar o destino de forma menos fantasmagórica colocando o outro num lugar de semelhante e no lugar do nosso destino, não deixando de incluir a gestão cautelosa da relação com este (uso de máscaras, luvas, distanciamento social). Seria tão mais  prudente manter o outro no lugar do desejo ou pelo menos no lugar do semelhante, do que no lugar do medo, a fim de evitarmos uma agressividade latente, quase sufocante, que ora se vira contra nós próprios e nos deprime, ora se dirige contra o outro em ataques cruéis, imaginários ou reais, nem sempre reprimidos pela razão e pela censura social. Só assim poderemos manter alguma sanidade mental que nos permita preservar o invólucro precioso da relação e dos seus diferentes sentidos, em vez de cedermos espaço à formação duma sociedade paranoide, permeada por ansiedades persecutórias, em que ainda nos afastamos mais do outro do que já estávamos antes da epidemia.

 

Referências:

Amaral Dias, C. (2000). Freud para além de Freud. Lisboa, Fim de Século Edições.

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