Sangue do Meu Sangue

O magnífico filme português Sangue do Meu Sangue apresenta-se pela voz dos seus actores como um filme sobre o amor incondicional entre vários membros duma família que vive em condições precárias num bairro de subúrbio lisboeta. O amor é retratado como uma força maior, arcaica e visceral, capaz de ultrapassar todas as barreiras, desafios e sacrifícios, mesmo que estes impliquem o vexame, a humilhação, a perda da dignidade e da própria vida.

Numa entrevista recente no programa Câmara Clara, o realizador João Canijo, explicou de forma consistente não só o seu método de trabalho mas as referências aos clássicos gregos presentes no filme através da inscrição sucessiva dos elementos essenciais da tragédia grega.

Segundo Aristóteles, a tragédia deveria indiciar desde o início o desenlace trágico que resultaria do conflito entre o desafio colocado à personagem (hybris) e o destino (anankê). Este conflito desenvolver-se-ia num crescente de sofrimento (pathos) até chegar ao climax, ponto culminante da catástrofe. A hybris seria o sentimento motor da tragédia que conduz os seus heróis à violação da ordem estabelecida através duma acção ou comportamento que se assume como um desafio aos poderes instituídos.

Na obra de Canijo, o amor de uma mãe pela filha e de uma tia pelo sobrinho, desafia os poderes instituídos do Bairro Padre Cruz, personificados no chefe duma rede de traficantes de droga e num médico, também oriundo do mesmo bairro, mas que ascendeu a um estrato sócio-económico superior, metáfora representativa, do poder resultante da desigualdade social.

Na entrevista referida, Canijo comenta como lhe interessou retratar a possibilidade da existência deste amor, capaz de mover as personagens a estados limite, quando elas se debatem com a sua sobrevivência, numa luta diária entre a precariedade do trabalho, a promiscuidade das relações e a inserção num ambiente socialmente desfavorecido, numa alusão clara às problemáticas sociais levantadas pela actual crise dos modelos politico-financeiros.

A argumentação do problema sócio-afectivo é legítima mas pode conduzir-nos a pensar erroneamente que nos contextos sociais mais pobres, os transtornos derivados da perturbação do vínculo afectivo são necessariamente mais graves ou mais frequentes que nos estratos sócio-económicos mais elevados. Na verdade, as várias formas de perturbação da vinculação entre a pessoa que cuida e a criança, que posteriormente se reflectem nos padrões relacionais da última, são transversais a todos os estratos sociais e estão dependentes duma multiplicidade de factores que incluem não só os sócio-económicos, culturais, biológicos, mas também e essencialmente, a estrutura afectiva da pessoa cuidadora, a consistência do papel cuidador ao longo do crescimento, a dinâmica familiar, a capacidade de promover a autonomia emocional do sujeito, entre outros.

Por vezes, um elemento de referência estável durante o desenvolvimento como um mentor inspirador, um interesse particular que promova o sentimento de pertença a um grupo ou mesmo um papel derivado da estrutura resiliente do indivíduo(a), construída por oposição a um ambiente de crescimento desfavorável, podem reforçar a pessoa na sua autonomia e capacidade para amar.

Canijo não faz jus à sua teoria na concretização do próprio filme e confessa que os actores tiveram um papel crucial na construção dos diálogos e na resolução do argumento com um “final feliz” contrário às suas aparentes intenções. Em Sangue do Meu Sangue, o amor incondicional é transformador e salvífico, ele preserva a força que permite àquelas pessoas encarar um mundo hostil e desajustado ao seu redor mas pleno de significado no seu interior.

O Bairro Padre Cruz é um lugar degradado que reflecte a guettização dos grupos sociais retratados no filme e as estratégias de sobrevivência dos mesmos. Apesar da violência iminente na forma como algumas relações se estabelecem, resultante das práticas transgressoras e do aproveitamento dos escassos recursos, perspassa ao longo da narrativa o sentimento solidário entre os seus habitantes e a defesa incondicional dos que nos são mais queridos e mais desprotegidos. A desorganização do meio envolvente parece reforçar os laços afectivos, perante o isolamento e abandono a que a sociedade os vetou.

De um modo formalmente muito elaborado, Canijo entrecorta, sobrepõe e duplica planos que só mostram partes do que está acontecer, o que nas palavras do autor, instilam o espectador a fantasiar sobre o que não está na imagem e a participar na construção dos significados e na intensidade dos pressupostos trágicos do filme. O ritmo lento permite instalarmo-nos no quotidiano das personagens e ficarmos confrontados com o seu modo de vida, que a nós, portugueses, nos é tão familiar, mas também tão distante, quando dele não estamos conscientes, ou quando o confronto da precariedade das condições de vida nos é apresentado de forma dolorosa e cruel.

A multiplicidade formal reflecte as várias dimensões da questão amorosa e expõe a contradição do discurso de Canijo. Nos contextos considerados por muitos de nós como os mais desajustados, os afectos irrompem como elemento estabilizador e aglutinador, não só nas relações de sangue que formam o eixo central do filme, como nas relações entre os vizinhos, ou mesmo entre o mafioso/traficante e as suas filhas.

A tragédia grega tinha como função a catarse (katharsis), a purificação das emoções e paixões, idênticas às sentidas pelas personagens, efeito conseguido através do terror (phobos) e da piedade (eleos) que deve provocar nos espectadores. Na cena final assistimos arrepiados ao confronto entre a humilhação extrema e violência desmesurada resultante das condições do lugar e a força maior do amor capaz de vencer a mais terrível das provações.

Em Sangue do Meu Sangue somos confrontados com o poder dos afectos numa época que não assumimos muitas vezes a importância destes, embora os procuremos incessantemente. As defesas que muitos de nós construímos em adaptação ao mundo exterior impedem-nos de conseguir identificar esta hybris, o amor incondicional pelo outro, capaz de criar sentido numa realidade desagregada, subjugada ao consumismo esquizofrenante e num mundo em risco de se desmoronar, em que nos sentimos, tal como os personagens do filme, permanentemente alienados.

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3 thoughts on “Sangue do Meu Sangue

  1. Acrescentaria isto: que a nossa proximidade destas personagens está a ser responsável por uma certa forma de recusa do filme, curiosamente em sectores “sofisticados”, que consiste em dizer que ele é habitado por “caricaturas”. O cinema do Canijo é uma espécie de abraço de reconhecimento, mas está tão próximo que nos sentimos sufocados. Até nisso ele diz quem somos hoje, habitantes ou não do bairro do Padre Cruz. (“Fantasia Lusitana” não era um filme sobre o Estado Novo, na verdade, era uma exposição do mundo português, tal como ele ainda é hoje). Para além disso, há quem não saiba bem o que fazer com esta mistura do “popular” e do “culto” no cinema deste realizador (aliás, parece que os mais “cultos” se envergonham do “popular”, por isso falam em “caricatura”). A versão longa do filme, de qualquer forma, é o “monumento”, é aquela que é mais “justa” para as personagens e aquela que cumpre uma espécie de utopia transversal que está em “sangue do meu sangue”. Satisfazendo a vontade de ficarmos com estas pessoas para sempre.

    • Olá Vasco faz todo o sentido o que dizes, eu também gostei muito da “Fantasia Lusitana” e senti que nos retratava tal como somos hoje de forma muito confrontativa, deixando-nos no final do filme com um amargo de boca. Fiquei com vontade de ver a versão longa do Sangue. Inscrevo-me com prazer nos populares com alguma cultura 🙂 Fico muito satisfeito (e honrado) que tenhas descoberto e lido o meu texto. Um abraço

  2. tens de ver mesmo a versão longa: há todo um jogo de espelhos entre os vários “pares” que só é evidente aí. (mesmo a sequencia da violação deixa de ser um momento de brutalidade inusitado e passa a ser o culminar de uma espécie de “ciclo de sexo” que se vai desenhando ao longo do filme e que, afinal, é a forma como as personagens falam). Além disso, há cenas estarrecedoras que ficaram de fora da versão curta.
    Gosto muito deste filme.
    E o prazer foi meu, Rui

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