Ansiedade Social — Porque não queremos estar sós?

Vivemos numa época em que as formas de comunicação e de interacção social estão a atravessar mudanças significativas. As redes virtuais e os canais de chat substituíram em parte as salas de convívio e os salões de baile. Os códigos de sedução estão manifestamente alterados. Já ninguém pisca o olho ou pede lume para seduzir o outro, as pessoas estão pouco à vontade com o seu corpo e não têm consciência da  linguagem corporal.

A sociedade portuguesa ganhou maior mobilidade social nos anos 80 mas ressente-se agora na procura de novas referencias sociais. As pessoas têm com frequência dificuldade em posicionar-se face ao outro, em termos da combinação do estatuto sócio-económico, padrões culturais e interesses profissionais. A interacção “ao vivo” tornou-se mais rara e menos treinada durante o desenvolvimento, agravada pelo medo obsessivo dos pais em relação à segurança dos filhos e pelas dificuldades destes desenvolverem mecanismos satisfatórios de regulação da auto-estima e auto-confiança.

Uma das consequências destas mudanças é o desconforto que um número crescente de pessoas sente ao nível das relações sociais. É normal as pessoas sentirem algum tipo de ansiedade quando estão perante desconhecidos e têm de interagir com estes.  Mas quando este desconforto leva as pessoas a temerem situações de interacção social, a evitarem estarem num grupo ou a ficarem demasiado inibidas ou ansiosas perante alguém que não conhecem, estamos perante um problema de ansiedade diagnosticado pelo Manual Americano de Diagnóstico Psiquiátrico DSM-IV como Fobia Social.

Este manual aponta vários critérios que clarificam os sintomas que as pessoas normalmente apresentam: 1. Um medo acentuado e persistente em relação a uma ou mais situações sociais nas quais a pessoa está exposta a estranhos e ao escrutínio destes. O indivíduo receia agir de forma humilhante ou embaraçosa. 2. A exposição à situação social temida provoca quase sempre ansiedade. 3. A pessoa reconhece que o medo é excessivo e absurdo 4. As situações sociais ou de desempenho são evitadas ou toleradas com intensa ansiedade e mal-estar.

Para diferenciar a ansiedade social normal e a fobia social, o DSM considera que o problema interfere de forma significativa com as rotinas da pessoa impedindo-a por exemplo de desempenhar determinadas funções no trabalho, causa um grau elevado de mal-estar ou aflição e persiste pelo menos durante 6 meses.

As pessoas que sofrem de ansiedade social desenvolvem um medo irracional de que o os outros irão julgá-las de forma negativa qualquer que seja o seu comportamento. A ansiedade resulta essencialmente dum medo de rejeição por parte dos outros e da falta de confiança e aceitação de nós próprios. A ansiedade social produz efeitos no pensamento, no comportamento, no corpo e nas emoções. Dificuldades de concentração, não saber o que dizer, bloqueios do pensamento (“brancas”), tremores ou batimentos acelerados do coração estão entre os sintomas mais frequentes.

Para alem dos sentimentos de ansiedade, medo, apreensão e inibição, os indivíduos que sofrem de ansiedade social sentem uma enorme frustração e raiva consigo próprios e com os outros. Estes sentimentos são decorrentes de sentimentos de inferioridade, insegurança e da falta de esperança de poderem alterar o seu comportamento. A raiva e frustração podem dar mesmo lugar a sentimentos de tristeza e depressão.

Para algumas pessoas o problema está limitado a algumas situações como falar em público ou estar com pessoas sexualmente atraentes. Para outras, o problema afecta a maioria das situações que envolvem interacções com os outros. O grau de ansiedade sentido é variável tal como os sintomas. A ansiedade social pode ser também ocasional decorrente duma situação temporária de vulnerabilidade do indivíduo, normalmente causada por factores externos.

Como quase todos passamos por situações de ansiedade social convém conhecer alguns comportamentos  que poderão auxiliar-nos a estar mais descontraídos em contextos de interacção social.

A ansiedade tem como resposta fisiológica o aumento da adrelina no sangue que ao fim de cerca de 15 minutos despoleta o aumento da insulina que por sua vez tem um efeito calmante sobre o indivíduo. Podemos então observar que nas pessoas que tenham os níveis de glucose  adequados, ou seja que se tenham alimentado e dormido satisfatoriamente, a contra-reacção da insulina sobre o efeito da adrenalina é suficientemente rápida para que, ao fim de pouco tempo, possamos interagir com os outros de forma mais tranquila.

A prévia visualização interna das situações e a relativização do impacto que poderemos ter nos outros é outra estratégia bastante eficaz. Se pensarmos no tipo de interacção possível num determinado contexto ou mesmo na possibilidade de avaliação que os outros poderão fazer de nós, concluiremos facilmente que na maior parte das situações de interacção social, os julgamentos são apenas impressões superficiais que só poderão tornar-se juízos mais concretos se nos interessar aprofundar o contacto inicial com alguém. Mesmo nestes casos, teremos o poder de decidir com quem e sobre o quê poderemos partilhar determinados assuntos.

Relativamente a situações mais difíceis de gerir como falar público tem vantagem ensaiar várias vezes sozinho ou com alguém o que se vai expor em público. O recurso à medicação e o tratamento psicoterapêutico ficam normalmente reservados para quem tem este tipo de problema de forma continuada.

Nos casos em que a ansiedade social é generalizada, o problema está relacionado com a estrutura interna da pessoa resultante da combinação de factores biológicos, formação da personalidade e interacção com o meio ambiente.

Do ponto de vista biológico, as pessoas respondem de forma diversa quando o seu sistema nervoso é estimulado, podendo ser mais ou menos reactivas. Um sistema de alerta muito reactivo pode responder mais depressa e produzir sensações fisiológicas mais fortes, proporcionando uma sensibilidade apurada nas relações pessoais. Por outro lado, níveis elevados de reactividade e ansiedade podem tornar-se desconfortáveis por serem difíceis de tolerar.

O temperamento do indivíduo também parece ter influência genética mas são os primeiros anos de vida que determinam em grande parte a personalidade e o sentimento de segurança interno. A relação do bebé com os pais é um factor preponderante na forma como regulamos a nossa ansiedade. Os pais que são consistentes nas relações com as crianças, especialmente em termos de afecto, presença, constância nos comportamentos e empatia com as necessidades reais dos filhos, promovem indivíduos mais seguros, capazes de resistirem melhor à frustração e serem mais confiantes no contacto com os outros.

As relações no seio familiar e nos primeiros grupos de amigos têm um papel fundamental na forma como o indivíduo desenvolve mecanismos internos de regulação da auto-estima. A pessoa que se sente aceite e amado pelos familiares e amigos irá potencialmente construir uma visão positiva de si próprio e desenvolver um sentimento de valor intrínseco que lhe permitirá ser socialmente confiante.

Por outro lado, a forma como a família promove a autonomia dos filhos, dando-lhes espaço para experimentarem e lidarem com as consequências dos seus actos, proporciona uma visão realista do mundo e oferece as oportunidades necessárias para o treino de competências sociais e consequente regulação da ansiedade.

Experiências traumáticas de rejeição do indivíduo ou sentimentos de inadequação face às expectativas dos pais, professores ou outros podem comprometer a capacidade para a pessoa confiar em si e aceitar-se tal e qual é. As marcas deixadas por situações de rejeição ou descriminação podem mais tarde reflectir-se em dificuldades para responder a desafios e exigências mais complexas ao nível das relações sociais, profissionais e das relações intimas.

Factores externos como as imagens promovidas pelos media, valores morais e sociais,  a influencia da tecnologia na comunicação e o nível de competitividade no emprego ou na escola podem constituir-se como obstáculos importantes nas relações sociais e na procura de parceiro(a).

O nível de ansiedade social resulta da forma como cada um consegue gerir os múltiplos factores de pressão interna e externa. As relações sociais estão intrinsecamente ligadas à ideia de sobrevivência e de bem-estar, as pessoas dependem umas das outras e sentem-se estranhas quando são excluídas ou permanecem muito tempo isoladas. Mesmo sentados, sozinhos,  horas em frente a um computador, procuramos muitas vezes o contacto com o outro. Parece que o outro se torna fundamental porque de alguma forma reflecte o que nós somos como também nos  desafia a sermos diferentes.

Referencias:

Butler, G. (2007) Ultrapassar a Ansiedade Social e a Timidez, (Serra, H. Tradução) Lisboa: Casa da Letras (obra original publicada em 1999)

DSM-IV-TR Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (2002) (Almeida, J. N. Tradução) Lisboa: Climepsi Editores (obra original publicada em 2000)

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7 thoughts on “Ansiedade Social — Porque não queremos estar sós?

  1. OLá, tenho 32 anos, sou casada e tenho uma filha de 27 meses. Sempre fui uma pessoa com tendência para ver a vida de uma forma pessimista. De há 3 anos para cá já estive desempregada 2 vezes, estando neste momento a passar por uma fase julgo que muito depressiva e com problemas de auto-estima e auto-confiança. Aos 25 anos a minha mãe faleceu e passado pouco o meu marido veio viver junto comigo porque me sentia muito só, devido à morte da minha mãe. À 10 anos ingressei na faculdade, mas até agora nunca consegui terminar o curso, porque em determinadas alturas desmoralizava e acabava por desistir, talvez por não acreditar nas minhas capacidades. O meu marido passa muito tempo no estrangeiro por motivos profissionais e passo muito tempo sozinha, e estando desempregada estou muito tempo em casa a pensar. Muitos dias passo-os a chorar, sinto-me inútil, que ninguém se preocupa comigo e que até os meus amigos não se preocupam comigo como eu com eles, não tenho o minimo interesse em cuidar de mim e por vezes nem me alimento de forma correcta, porque nem vontade tenho para cozinhar.Estou farta de estar fechada em casa. Agora que tenho todo o tempo do mundo poderia empenhar-me a terminar o curso, mas não consigo ter a força de vontade que os outros esperavam de mim; é muito estúpido e frustrante não conseguir reagir a esta oportunidade. O meu marido não compreende esta frustação, e acha que não tenho motivos para me sentir assim, quando tenho um marido bom que me ajuda e uma filha linda. Sinto-me sozinha e e que ninguém compreende a minha tristeza, passo os dias a contar o tempo que falta para o meu marido regressar a casa, porque sinto falta da sua companhia, mas como seria normal, ele tem vontade de ter relações porque também sente a minha falta, mas eu não consigo, não tenho desejo, até porque olho para o meu corpo e não gosto do que vejo, não me sinto atraente, apesar de ele dizer que gosta de mim assim.
    Queria perguntar-lhe o que me aconselha a fazer para modificar esta situação, porque sinto que me estou a afundar numa espiral depressiva e tenho muito medo de como isto poderá terminar, porque no outro dia o meu marido disse-me uma coisa que não esqueço e que me magoou muito; ele acha que eu já não gosto dele, que estou sempre a pedir para ele arranjar outro emprego para passar mais tempo connosco mas não porque goste dele, só porque preciso de alguém para cuidar da nossa filha e da casa, tudo isto porque não lhe digo que o amo e porque sexualmente não me aproximo dele.
    Como posso sair desta situação?

    • Cara Filipa, parece-me que a sua depressão já se arrasta há algum tempo e como diz afecta a sua auto-estima, auto-confiança e consequentemente o desejo. Quando as pessoas estão deprimidas instala-se a tristeza, a apatia e a falta de prazer em todas as actividades. Obviamente que não deixou de gostar do seu marido, pelo contrário sente a falta do seu apoio o que é natural quando a pessoa está mais fragilizada. Contudo, ele deve senti-la mais afastada o que poderá ser interpretado como uma rejeição ou falta de interesse por ele ou pela relação. A única forma de resolver a sua situação é tratar-se. Os problemas que apresenta e em particular a depressão têm tratamento que muitas vezes implica a conjugação da psicoterapia e de tratamento psiquiátrico através de medicação. Aconselho-a a iniciar um processo psicoterapêutico para poder investigar as razões que a levaram a esta situação e que parecem vir de longe bem como apreender estratégias que a possam ajudar a iniciar e consolidar um projecto de mudança.

  2. Olá sou a Ana e tenho 29 anos , e descobri há 2 anos que sofria de ansiedade /fobia social através de um artigo numa revista . Tudo o que estava a ler se identificava comigo , o que piorou a minha situação , todos os sintomas … o ano passado procurei ajuda de um psicoterapeuta ,mas parei de ir ás consultas no Verão porque no inicio melhorei um bocadinho, e percebi tudo o que devia fazer para alterar esta situação de “sobrevivência”, os comportamentos, os pensamentos … mas com o passar do tempo, fui piorando devido á situação familiar, ás condições financeiras , ao trabalho, á falta de auto-estima…. as consultas eram de 3 em 3 semanas ou mais , e sempre q ia ás consultas a ansiedade aumentava e quando saía tb, comecei a ficar completamente paralisada…e deixei de ir. O q aconteceu entretanto é não consigo mais viver assim, nada faz sentido , n consigo manter uma relação estável com o meu marido , n consigo evoluir em nada enquanto estiver presa a isto…
    Já li mto sobre ansiedade social , e ouvi um médico/psicoterapeuta dizer num programa de tv q é possivél curar isto em pouco tempo … mas n sei q psicoterapeuta procurar … n sei o q fazer!

    • Cara Ana, a ansiedade social tem de facto tratamento, é uma questão de encontrar um terapeuta com experiência nesta área e com o qual se sinta confortável. Normalmente a ansiedade social não se consegue eliminar totalmente mas conseguem-se melhorias substanciais com a terapia nomeadamente a nível da percepção e diminuição da ansiedade à medida que é reforçada a estrutura do indivíduo e melhorada a sua auto-estima, auto-conceito etc. Embora o trabalho cognitivo comportamental possa ser muito útil considero que se conseguem obter resultados mais eficazes quando se enquadra o problema da ansiedade na estrutura do indivíduo como um todo. Eu tenho tratado alguns casos com problemas de ansiedade social com resultados bastante positivos. Se desejar marcar consulta é uma questão de usar os contactos referidos no site

  3. estou mal, tenho 47 anos, ñ consigo interagir com as pessoas, principalmente o meu marido, axo ele pobre de espirito, tudo qe ele faz me ira, todos qe se aproximam de mim eu axo um defeito, ñ consigo ficar bem por muito tempo, sou muito perfeccionista e ñ tolero pessoas desorganizadas e sem iniciativas, sempre tenho razão em tudo; detesto fazer serviços domésticos, xingo o tempo todo qando estou fazendo, pois detesto desordem, mas me sinto como empregada qando estou fazendo, e se tiver alguem perto de mim sem fazer nada, pra mim é o fim da picada, só falta me dar um derrame de tanta raiva, começo a xingar. Por favor me responda, e me diga, meu caso tem tratamento, isso só pode ser uma doença,,, eu sou muito alto astral sempre sou muito positiva. E tbm agora qe meu marido esta na caixa e meu filho em casa to ficando doida, pois nunca convivi 24 horas com ninguem. Obrigada pela atenção, aguardo anciosa… abraços

    • Cara Margarete eu vou respondendo aos comentários de acordo com a minha disponibilidade de tempo. Os sintomas que descreve apontam para uma dificuldade grande na relação com os outros que se tornou ainda mais angustiante após o seu marido se reformar e estar permanentemente consigo. A proximidade para si parece ser ameaçadora ou mesmo destrutiva. O seu perfeccionismo e a desvalorização dos outros são algumas das suas defesas para evitar a proximidade. Estes aspectos fóbicos da sua personalidade poderão ser abordados através duma psicoterapia adequada que a aconselho vivamente a fazer.

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