Deixa-me Entrar

Parece-me que ninguém poderá ficar indiferente ao magnífico filme sueco Deixa-me Entrar. Realizado por Thomas Alfredson e escrito por John Ajvide Lindquist, Deixa-me Entrar conta a história de Oskar, um rapaz de 12 anos, ostracizado por um grupo de colegas de escola que se apaixona por Eli, uma menina vampira com 200 anos. Eli vai ajudar Oskar a ultrapassar os seus medos, a crescer, a ficar mais forte e confiante, ao ponto de conseguir enfrentar a crueldade dos colegas. Oskar oferece a Eli a aceitação e o afecto por alguém que não se pode mostrar à luz do dia, que se alimenta do sangue dos outros e cuja natureza parece impossibilitar a relação amorosa.

Com um registo cinematográfico impecável e excelência na interpretação, Deixa-me Entrar é um convite à reflexão sobre a possibilidade de deixarmos entrar na nossa vida alguém completamente diferente de nós e de nos apaixonarmos não obstante a diferença. Deixa-me Entrar é um filme sobre a essência do amor ou sobre a possibilidade e poder transformador da relação amorosa.

O filme evoca a nostalgia do amor adolescente num estado puro, absolutamente capaz de ultrapassar todas as barreiras e em particular  todas as diferenças. O amor que nos torna mais fortes, mais destemidos e capazes. O amor que cria sentido, que nos salva da apatia, da tristeza, do desespero e especialmente da solidão. Afinal Eli e Oskar estão sozinhos no mundo. Deixa-me Entrar representa também o paradigma do amor idealizado na sociedade contemporânea. O amor como salvação da solidão, o amor que nos liberta do quotidiano, o amor que resolve a diferença.

Oskar é o estereótipo do adolescente de hoje, a viver nos subúrbios duma grande cidade, filho de pais divorciados, com os quais tem uma relação emocionalmente distante mesmo quando procura aproximar-se do pai. Oskar está entregue a si próprio. Está abandonado. Nos antípodas do distanciamento e conduta mecânica e moralista da mãe de Oskar, a existência do pai de Eli circunscreve-se e anula-se na procura do sangue que alimenta a filha. O pai de Eli está encarcerado no seu amor incondicional de pai, do qual acabará por ser vítima.

O amor é retratado como incondicional e vampiresco. É o amor que nos eleva, nos salva e nos despedaça. O amor por uma vampira é também o amor que só tem existência numa dimensão transcendental e desde logo idealizada. Apesar de seguir a tradição clássica dos filmes de vampiros, Deixa-me Entrar ganha uma enorme pertinência na forma como nos confronta com a nossa percepção do amor e do fascínio que a relação amorosa exerce sobre nós como solução para os nossos problemas. Cada vez mais o amor é percepcionado como elemento mágico, idealizado, substituto da religião e da crença em algo superior que nos vai salvar.

As dificuldades em estabelecer e permanecer na relação intima estão muitas vezes associadas a esta ideia de amor. Um amor que surge de forma miraculosa e não um amor que se constrói, que cresce, que só existe porque foi investido de experiências e contradições. As dificuldades na relação com o outro surgem muitas vezes porque queremos alguém que nos espelhe ou que seja como nós idealizámos. É talvez por isso que a beleza perturbadora e comovente do amor de Eli e Oskar surge nos aspectos para nós paradoxais e transgressores da entrega e aceitação sem limites da diferença do outro.

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3 thoughts on “Deixa-me Entrar

  1. O seu comentário sobre o filme está muito bom.
    Concordo com a ideia que duas pessoas diferentes se possam amar, afinal, qual seria a piada de viver com alguém igual a nós?
    A minha última leitura chama-se “Pourquoi ça casse alors que ça pourrait marcher” de Alon Gratch. Esta psicóloga explica numa pequena introdução sobre o amor narcisico que “il est indispensable de s’aimer soi-même: de sorte que tout amour commence par l’amour de soi. De fait, nous recherchons en géneral l’amour à cause de ce qu’il provoque en nous-mêmes – le bonheur fou d’être vivant, apprécié, et un sentiment d’extase à l’egard de la vie, de notre vie. S’il est donc sain qu’une relation amoureuse comporte une dose normale de narcissisme, dans l’amour narcissique, en revanche, nous avons un besoin démesuré de nous sentir spécial. Si pour tomber amoureux, il est nécessaire d’idéaliser son partenaire afin de ne pas trop s’arrêter à ses limites, dans l’amour narcissique le fossé entre l’idéalisation et la réalité de l’autre est si profond qu’il finit par être fatal à la relation.” /…/
    “Le narcissique pathologique est le plus souvent considéré comme une forme excessive d’amour de soi, alors que c’est l’inverse qui est vrai. Pour lutter contre une faible estime de soi inconsciente, voire une haine de soi, le narcissique rajoute et met en avant ses performances, son pouvoir ou sa beauté. En autre, plus on a conscience de ne pas s’aimer ou d’avoir une mauvaise estime de soi, plus le narcissisme s’accentue parce que l’on a en permanence à coeur de prouver le contraire. Il est donc plus juste d’envisager le narcissisme comme un égocentrisme résultant de nos efforts pour reguler notre estime de soi et de ne pas le réduire à un état pathologique: c’est d’ailleurs aussi un aspect nécessaire et potentiellement positif du processus de développement psychologique. Pour montrer ce donc on est capable ou pour plaire aux autres et accéder à une bonne estime de soi, on évolue. Bien sûr , dans sa forme extrême et sous certaines conditions, le narcissisme se révèle être un problème débilitant”. /…/
    Estar com alguém narcisico não é fácil, sobretudo quando sentimos que somos realmente diferentes da pessoa com quem estamos. O corpo não é o desejado, a idade não é a desejada, mas por outro lado até nos entendemos bem…
    Lutei muito por a minha última relação, mas na verdade, as forças para continuar foram-se esgotando e hoje encontro-me sozinho, arrependido, mas seguro que fiz tudo para que a relação durassse pelo menos sete meses.
    Continuo a amar, pois não consigo desligar este pequeno botão que se chama cérebro ou mesmo coração para os mais românticos, mas hoje não vejo hipótese… serei sempre o mesmo!
    Daqui a alguns anos talvez seja diferente, mais bonito, mais musculado, mais maduro e mais estável na vida…
    Eis um desabafo…

  2. MEU CARO RUI
    A SUA CRÍTICA ESTÁ TODA CERTA, O AMOR É TRANSCENDENTAL.
    SÓ QUE VOCÊ NÃO DEVE TER LIDO O LIVRO ORIGINAL. ELI É UM MENINO QUE FOI CASTRADO HÁ 200 ANOS.!!!

  3. eu nao sabia que bay era menino fique chocado com isso , o filme e muito bom amei espero que tenha continuacao

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