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	<title>Rui Ferreira Nunes &#187; auto-estima</title>
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		<title>Depressão e Desemparo</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Apr 2011 14:56:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma das dificuldades no diagnóstico da depressão é a grande heterogeneidade de contextos e factores que podem despoletar as perturbações depressivas. Muitas vezes a depressão é precipitada por acontecimentos stressantes pontuais, mas que normalmente têm na base conflitos internos, dos quais os pacientes não estão conscientes ou procuram desvalorizar, tendo dificuldade em identificar as causas dos sintomas depressivos. Outras situações são claramente evidentes como as situações de perda, quer seja um divórcio ou separação, a morte de um ente querido ou a perda do emprego.</p>
<p><span id="more-59"></span></p>
<p>A depressão pode ser crónica ou circunstancial, apresentar sintomas mais ligeiros ou mais severos, estar enquadrada numa perturbação mental mais grave como a bipolaridade ou uma psicose, ser induzida pelo consumo de substâncias, estar associada a situações de doença, período pós-parto ou motivada por factores sócio-económicos como os decorrentes da situação de grande instabilidade em que vivemos neste momento. Em qualquer dos quadros, os aspectos afectivos ocupam um peso relevante, tanto na forma como nos validamos como nas relações com os outros. Por  vezes as pessoas deprimem porque se sentem sós ou porque estão a atravessar crises existenciais que as confrontam com as suas vulnerabilidades e com o sentido da sua vida. Apesar de estarem comprovados factores genéticos e bio-químicos que predispõem certas pessoas para a depressão, não são tão decisivos como noutro tipo de patologias como a bipolaridade.</p>
<p>Os sintomas normalmente associados à depressão são as características melancólicas. A diminuição ou ausência da capacidade para experimentar prazer (astenia) e a falta de reactividade aos estímulos habitualmente agradáveis são especificados pelo Manual de Psiquiatria Americana DSM-IV como critérios para o diagnóstico deste tipo de depressão cujo grau de severidade pode induzir a pessoa a deixar de conseguir funcionar a nível social, ocupacional ou escolar. A perda do prazer é normalmente acompanhada de tristeza e sentimentos de culpa excessivos, perda do apetite, acordar pelo menos duas horas antes do habitual, sentir uma grande agitação ou lentificação psicomotora.</p>
<p>Freud teorizou que nos períodos de luto, a pessoa incorpora a representação da pessoa amada e identifica-se com esta com vista a evitar sentir a perda. Neste processo nós tornamo-nos objecto dos sentimentos negativos que inconscientemente guardamos relativamente às pessoas que amamos. Esta identificação gera ressentimento pela perda e sentimentos de culpa por situações reais ou imaginárias relativas às relações com a pessoa que se perdeu. Segundo Freud, este período de incorporação da pessoa amada seria seguido dum período de luto, em que a pessoa recorda a pessoa perdida e desta forma separa-se da representação interna da mesma. No caso das pessoas muito dependentes esta separação fica comprometida dando origem a situações de auto-punição, culpa, auto-abuso e depressão.</p>
<p>Estudos posteriores de análise dos sonhos de pessoas deprimidas encontraram como temas recorrentes a perda e o falhanço e não a zanga e hostilidade contra o próprio, como Freud havia enunciado. Contudo, as pessoas deprimidas expressam com frequência sentimentos de zanga e hostilidade contra os outros, o que poderá ser entendido como uma projecção do mal-estar interno e dos sentimentos de culpa. Por outro lado, as pessoas co-dependentes tendem de facto a deprimir no seguimento duma rejeição. A perda e o falhanço são encarados como falhas pessoais que levam ao abandono interno e à desistência de si e dos outros.</p>
<p>As perturbações depressivas podem ter de facto outro tipo de sintomas considerados pelo DSM-IV como atípicos por oposição à representação melancólica da depressão. As características atípicas incluem maior reactividade do humor, em particular à rejeição interpessoal percebida, aumento do peso e do apetite, hipersónia (dormir mais horas do que o habitual), sensação de peso ou inércia nos braços e nas pernas.</p>
<p>Teorias posteriores da depressão colocaram enfâse na estrutura interna do indivíduo e na forma como este se posiciona face ao mundo. Autores cognitivistas como Beck consideraram que os indivíduos que tendem a deprimir adquiriram um esquema mental negativo decorrente da perda dum progenitor, ou outro tipo de traumas ocorridos na infância e adolescência como por exemplo a rejeição dos colegas de escola, negligência dos pais ou professores, abuso etc. Esta visão negativa do próprio e do mundo é reactivada  cada vez que são encontradas situações que se assemelham às vividas no passado.</p>
<p>Por outro lado, esquemas defensivos decorrentes das situações traumáticas que visam a sobrevivência num mundo entendido como hostil deixam a pessoa numa posição de maior vulnerabilidade. Por exemplo, nas sociedades actuais, onde que existe uma grande prevalência do narcisismo, é frequente depararmo-nos com indivíduos que  incorporam a ideia de que têm de ser perfeitos para que possam gostar deles, ficando dependentes da aprovação dos outros para se sentirem bem consigo próprios e logo mais vulneráveis à rejeição.</p>
<p>Segundo Beck, uma visão negativa de si próprio e do mundo pode gerar expectativas negativas sobre o futuro e despoletar esquemas mentais que distorcem a realidade, confirmando esta visão pessimista. São exemplos destes esquemas a inferência arbitrária de conclusões negativas sobre o próprio ou sobre os outros a partir de dados insuficientes ou seleccionados de forma a confirmarem o negativismo. A minimização de aspectos positivos, as inferências a partir da  maximização de detalhes negativos, ou a generalização a partir destes, dificultam a capacidade de julgar e avaliar a realidade.</p>
<p>Para Bowlby, o autor que desenvolveu a teoria da vinculação, a qualidade da relação com as pessoas mais próximas da criança tem um papel decisivo na construção dos alicerces da confiança no próprio e nos outros. Uma criança que é amada e validada pelos seus cuidadores de forma consistente acabará por desenvolver mecanismos internos de auto-estima e auto-confiança que lhe permitem responder de forma mais resiliente em situações de stress.</p>
<p>As situações de desamparo emocional são hoje extremamente comuns e são resultado de relações paradoxais ou abandónicas na infância e adolescência. Por vezes os pais estão demasiado ocupados consigo próprios ou com a logística profissional e familiar. Apesar de cuidarem das crianças, não as validam relativamente ao que elas sentem e precisam, deixando-as demasiado entregues a si próprias na construção do eu e na descodificação das relações com o mundo exterior. O amparo emocional promove um eu mais coeso, capaz de resistir às perdas, às situações de rejeição e aos obstáculos do real porque é capaz de julgar o mundo e a si próprio de forma adequada, identificando e relativizando os aspectos que lhe são exteriores e confiando na sua capacidade para os ultrapassar.</p>
<p>A depressão afecta 20% da população portuguesa que procura como tratamento preferencial a medicação anti-depressiva. Nas depressões reactivas causadas por factores exógenos, esta medicação pode ser um auxiliar fundamental para os pacientes recuperarem da doença. Contudo, a maioria das pessoas que sofrem de depressão apresentam um padrão crónico ou cíclico, em que a depressão surge como uma defesa que decorre de factores endógenos e das vulnerabilidades acima descritas. O imediatismo da medicação anti-depressiva pode promover a ideia de que os factores causadores da doença são exteriores à pessoa, como é tão frequente acontecer em Portugal em que culpamos o país ou os outros do nosso mal-estar.  Pelo contrário, o recurso exclusivo à medicação reforça muitas vezes a  estrutura narcísica dos pacientes, em lugar de serem investigados os conflitos internos que estão na origem da doença.</p>
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		<title>Ansiedade Social — Porque não queremos estar sós?</title>
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		<pubDate>Fri, 04 Sep 2009 15:49:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Vivemos numa época em que as formas de comunicação e de interacção social estão a atravessar mudanças significativas. As redes virtuais e os canais de chat substituíram em parte as salas de convívio e os salões de baile. Os códigos &#8230; <a href="http://ruiferreiranunes.com/2009/09/04/ansiedade-social-porque-nao-queremos-estar-sos/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=39&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Vivemos numa época em que as formas de comunicação e de interacção social estão a atravessar mudanças significativas. As redes virtuais e os canais de chat substituíram em parte as salas de convívio e os salões de baile. Os códigos de sedução estão manifestamente alterados. Já ninguém pisca o olho ou pede lume para seduzir o outro, as pessoas estão pouco à vontade com o seu corpo e não têm consciência da  linguagem corporal.<span id="more-39"></span></p>
<p>A sociedade portuguesa ganhou maior mobilidade social nos anos 80 mas ressente-se agora na procura de novas referencias sociais. As pessoas têm com frequência dificuldade em posicionar-se face ao outro, em termos da combinação do estatuto sócio-económico, padrões culturais e interesses profissionais. A interacção &#8220;ao vivo&#8221; tornou-se mais rara e menos treinada durante o desenvolvimento, agravada pelo medo obsessivo dos pais em relação à segurança dos filhos e pelas dificuldades destes desenvolverem mecanismos satisfatórios de regulação da auto-estima e auto-confiança.</p>
<p>Uma das consequências destas mudanças é o desconforto que um número crescente de pessoas sente ao nível das relações sociais. É normal as pessoas sentirem algum tipo de ansiedade quando estão perante desconhecidos e têm de interagir com estes.  Mas quando este desconforto leva as pessoas a temerem situações de interacção social, a evitarem estarem num grupo ou a ficarem demasiado inibidas ou ansiosas perante alguém que não conhecem, estamos perante um problema de ansiedade diagnosticado pelo Manual Americano de Diagnóstico Psiquiátrico DSM-IV como Fobia Social.</p>
<p>Este manual aponta vários critérios que clarificam os sintomas que as pessoas normalmente apresentam: 1. Um medo acentuado e persistente em relação a uma ou mais situações sociais nas quais a pessoa está exposta a estranhos e ao escrutínio destes. O indivíduo receia agir de forma humilhante ou embaraçosa. 2. A exposição à situação social temida provoca quase sempre ansiedade. 3. A pessoa reconhece que o medo é excessivo e absurdo 4. As situações sociais ou de desempenho são evitadas ou toleradas com intensa ansiedade e mal-estar.</p>
<p>Para diferenciar a ansiedade social normal e a fobia social, o DSM considera que o problema interfere de forma significativa com as rotinas da pessoa impedindo-a por exemplo de desempenhar determinadas funções no trabalho, causa um grau elevado de mal-estar ou aflição e persiste pelo menos durante 6 meses.</p>
<p>As pessoas que sofrem de ansiedade social desenvolvem um medo irracional de que o os outros irão julgá-las de forma negativa qualquer que seja o seu comportamento. A ansiedade resulta essencialmente dum medo de rejeição por parte dos outros e da falta de confiança e aceitação de nós próprios. A ansiedade social produz efeitos no pensamento, no comportamento, no corpo e nas emoções. Dificuldades de concentração, não saber o que dizer, bloqueios do pensamento (&#8220;brancas&#8221;), tremores ou batimentos acelerados do coração estão entre os sintomas mais frequentes.</p>
<p>Para alem dos sentimentos de ansiedade, medo, apreensão e inibição, os indivíduos que sofrem de ansiedade social sentem uma enorme frustração e raiva consigo próprios e com os outros. Estes sentimentos são decorrentes de sentimentos de inferioridade, insegurança e da falta de esperança de poderem alterar o seu comportamento. A raiva e frustração podem dar mesmo lugar a sentimentos de tristeza e depressão.</p>
<p>Para algumas pessoas o problema está limitado a algumas situações como falar em público ou estar com pessoas sexualmente atraentes. Para outras, o problema afecta a maioria das situações que envolvem interacções com os outros. O grau de ansiedade sentido é variável tal como os sintomas. A ansiedade social pode ser também ocasional decorrente duma situação temporária de vulnerabilidade do indivíduo, normalmente causada por factores externos.</p>
<p>Como quase todos passamos por situações de ansiedade social convém conhecer alguns comportamentos  que poderão auxiliar-nos a estar mais descontraídos em contextos de interacção social.</p>
<p>A ansiedade tem como resposta fisiológica o aumento da adrelina no sangue que ao fim de cerca de 15 minutos despoleta o aumento da insulina que por sua vez tem um efeito calmante sobre o indivíduo. Podemos então observar que nas pessoas que tenham os níveis de glucose  adequados, ou seja que se tenham alimentado e dormido satisfatoriamente, a contra-reacção da insulina sobre o efeito da adrenalina é suficientemente rápida para que, ao fim de pouco tempo, possamos interagir com os outros de forma mais tranquila.</p>
<p>A prévia visualização interna das situações e a relativização do impacto que poderemos ter nos outros é outra estratégia bastante eficaz. Se pensarmos no tipo de interacção possível num determinado contexto ou mesmo na possibilidade de avaliação que os outros poderão fazer de nós, concluiremos facilmente que na maior parte das situações de interacção social, os julgamentos são apenas impressões superficiais que só poderão tornar-se juízos mais concretos se nos interessar aprofundar o contacto inicial com alguém. Mesmo nestes casos, teremos o poder de decidir com quem e sobre o quê poderemos partilhar determinados assuntos.</p>
<p>Relativamente a situações mais difíceis de gerir como falar público tem vantagem ensaiar várias vezes sozinho ou com alguém o que se vai expor em público. O recurso à medicação e o tratamento psicoterapêutico ficam normalmente reservados para quem tem este tipo de problema de forma continuada.</p>
<p>Nos casos em que a ansiedade social é generalizada, o problema está relacionado com a estrutura interna da pessoa resultante da combinação de factores biológicos, formação da personalidade e interacção com o meio ambiente.</p>
<p>Do ponto de vista biológico, as pessoas respondem de forma diversa quando o seu sistema nervoso é estimulado, podendo ser mais ou menos reactivas. Um sistema de alerta muito reactivo pode responder mais depressa e produzir sensações fisiológicas mais fortes, proporcionando uma sensibilidade apurada nas relações pessoais. Por outro lado, níveis elevados de reactividade e ansiedade podem tornar-se desconfortáveis por serem difíceis de tolerar.</p>
<p>O temperamento do indivíduo também parece ter influência genética mas são os primeiros anos de vida que determinam em grande parte a personalidade e o sentimento de segurança interno. A relação do bebé com os pais é um factor preponderante na forma como regulamos a nossa ansiedade. Os pais que são consistentes nas relações com as crianças, especialmente em termos de afecto, presença, constância nos comportamentos e empatia com as necessidades reais dos filhos, promovem indivíduos mais seguros, capazes de resistirem melhor à frustração e serem mais confiantes no contacto com os outros.</p>
<p>As relações no seio familiar e nos primeiros grupos de amigos têm um papel fundamental na forma como o indivíduo desenvolve mecanismos internos de regulação da auto-estima. A pessoa que se sente aceite e amado pelos familiares e amigos irá potencialmente construir uma visão positiva de si próprio e desenvolver um sentimento de valor intrínseco que lhe permitirá ser socialmente confiante.</p>
<p>Por outro lado, a forma como a família promove a autonomia dos filhos, dando-lhes espaço para experimentarem e lidarem com as consequências dos seus actos, proporciona uma visão realista do mundo e oferece as oportunidades necessárias para o treino de competências sociais e consequente regulação da ansiedade.</p>
<p>Experiências traumáticas de rejeição do indivíduo ou sentimentos de inadequação face às expectativas dos pais, professores ou outros podem comprometer a capacidade para a pessoa confiar em si e aceitar-se tal e qual é. As marcas deixadas por situações de rejeição ou descriminação podem mais tarde reflectir-se em dificuldades para responder a desafios e exigências mais complexas ao nível das relações sociais, profissionais e das relações intimas.</p>
<p>Factores externos como as imagens promovidas pelos media, valores morais e sociais,  a influencia da tecnologia na comunicação e o nível de competitividade no emprego ou na escola podem constituir-se como obstáculos importantes nas relações sociais e na procura de parceiro(a).</p>
<p>O nível de ansiedade social resulta da forma como cada um consegue gerir os múltiplos factores de pressão interna e externa. As relações sociais estão intrinsecamente ligadas à ideia de sobrevivência e de bem-estar, as pessoas dependem umas das outras e sentem-se estranhas quando são excluídas ou permanecem muito tempo isoladas. Mesmo sentados, sozinhos,  horas em frente a um computador, procuramos muitas vezes o contacto com o outro. Parece que o outro se torna fundamental porque de alguma forma reflecte o que nós somos como também nos  desafia a sermos diferentes.</p>
<p>Referencias:</p>
<p>Butler, G. (2007) Ultrapassar a Ansiedade Social e a Timidez, (Serra, H. Tradução) Lisboa: Casa da Letras (obra original publicada em 1999)</p>
<p>DSM-IV-TR Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais (2002) (Almeida, J. N. Tradução) Lisboa: Climepsi Editores (obra original publicada em 2000)</p>
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