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	<title>Rui Ferreira Nunes &#187; Artigos</title>
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		<title>Rui Ferreira Nunes &#187; Artigos</title>
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		<title>Depois da Infidelidade</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Mar 2012 10:57:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[O impacto psicológico causado pelas situações de infidelidade leva muitas pessoas a procurar a terapia de casal e a terapia individual para tentar ultrapassar as feridas abertas pela quebra das expectativas sobre o outro e sobre a relação. A definição &#8230; <a href="http://ruiferreiranunes.com/2012/03/14/depois-da-infidelidade/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=178&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O impacto psicológico causado pelas situações de infidelidade leva muitas pessoas a procurar a terapia de casal e a terapia individual para tentar ultrapassar as feridas abertas pela quebra das expectativas sobre o outro e sobre a relação.</p>
<p>A definição de infidelidade inclui duas componentes comportamentais: 1. Um dos parceiros envolve-se com um terceiro em comportamentos de cariz sexual que violam de forma explícita ou implícita as expectativas da relação; 2. Um dos parceiros envolve-se com um terceiro em comportamentos de natureza não-sexual tais como partilhar tempo, sentimentos e pensamentos que violam de forma explícita ou implícita as expectativas da relação.</p>
<p><span id="more-178"></span></p>
<p>Em qualquer dos casos, a definição de infidelidade caracteriza-se, <span style="color:#333333;font-style:normal;line-height:24px;">de forma explícita ou implícita, </span>pela quebra do compromisso acordado por ambos os membros do casal. A natureza do compromisso e a forma subjectiva como é assumido e sentido é por vezes a primeira questão que se levanta num cenário de infidelidade. Muitos casais não discutem o compromisso esperado e possuem percepções diversas sobre os comportamentos aceitáveis na relação com terceiros. Contudo, são de facto os comportamentos claramente não expectáveis que produzem situações de maior risco para a relação nomeadamente quando uma das pessoas é surpreendida com a evidência da quebra do compromisso e a forma como este se transforma numa situação de clara agressão e violação do parceiro.</p>
<p>As razões que levam a situações de infidelidade são múltiplas e incluem sempre uma componente relacional, ou seja a quebra do compromisso é derivada duma dinâmica em que o parceiro assume ou assumiu um papel visto pelo outro como passível de ser violado. Por exemplo, relações em que as pessoas têm pouca intimidade ou em que uma assume um papel cuidador e parental em relação ao outro, levam por vezes um dos membros a procurar preencher as suas necessidades emocionais e sexuais fora da relação. Factores culturais e sociais podem ter um peso relevante nas situações de infidelidade. Experiências sexuais fora da relação são por vezes encaradas como aceitáveis pelo seu cunho clandestino e transgressor por oposição ao carácter estável, social e moralmente adequado às necessidades do sujeito e ao seu enquadramento familiar. Obviamente que esta análise é circunscrita aos padrões observados nas sociedades ditas ocidentais e não pode ter a mesma aplicação em culturas que encaram a fidelidade de forma manifestamente diversa.</p>
<p>Não obstante, a estrutura psicológica individual é um factor preponderante nos cenários de infidelidade. Excluídos os casos do foro patológico, as dinâmicas relacionais reflectem sempre a forma como as pessoas são diferenciadas e capazes de assumir o compromisso com o outro. A história familiar e de desenvolvimento têm um peso determinante na construção dos padrões interpessoais, na reprodução de padrões relacionais experienciados no passado ou na projecção na outra pessoa de aspectos de si próprio não resolvidos. Por exemplo, a falta de validação e gratificação narcísica durante o crescimento poderão levar a uma desvalorização do vínculo afectivo com o parceiro e à procura dum elemento exterior à relação com funções excitatórias ou mágicas sentidas como reparadoras de falhas no desenvolvimento do indivíduo.</p>
<p>O plano de tratamento pós-infidelidade no contexto da terapia de casal pode comportar diferentes objectivos. Os membros do casal podem estabelecer como objectivo recuperar a relação e terminar de imediato o caso extra-conjugal se este ainda não estiver terminado. O casal pode também optar por um plano ambivalente, neste caso o objectivo é clarificar o futuro da relação e do <em>affair</em>. Por último, ambos os membros do casal podem desejar terminar a relação e o objectivo da terapia é a separação nas melhores condições possíveis. Em qualquer das situações o terapeuta compromete-se com ambos os parceiros em não ocultar do outro nenhum dos aspectos confidenciados em sessões individuais e em colaborar no sentido de promover o bem-estar do casal.</p>
<p>Neste sentido, a terapia procura defender ambos os membros do casal de ameaças ou acções que possam magoar o próprio ou o outro. São verbalizados as razões e os sentimentos decorrentes do caso extra-conjugal com respeito e consideração pelo parceiro. Procura-se avaliar o impacto psicológico do <em>affair</em> em ambos os membros do casal e desenvolver intervenções com vista a resolver e a aliviar os sintomas detectados, que no caso da vítima podem compreender sintomas de stress pós-traumático e ou depressão. São exemplos destas intervenções, desenvolver estratégias para lidar com pensamentos intrusivos relativos ao <em>affair</em> experienciados pela vítima, promover formas de expressão dos sentimentos e compreensão pelo ponto de vista do outro.</p>
<p>Uma vez que estejam identificados os factores que conduziram à situação de infidelidade e definidos os objectivos da terapia, o casal enceta um projecto de mudança na relação em que se procura estabelecer individualmente os aspectos a alterar com vista a promover a recuperação da relação ou eventualmente a optar pela separação.</p>
<p>As crises provocadas por situações de infidelidade, apesar de muito dolorosas, são muitas vezes oportunidades para o casal repensar o projecto de relação e confrontar-se com mudanças individuais que implicam o crescimento emocional de ambos os parceiros. A co-responsabilização das situações criadas e a capacidade para aceitar os erros cometidos são passos decisivos para restabelecer uma relação mais significativa e duradoura. Uma melhor compreensão das nossas vulnerabilidades e a possibilidade de as poder partilhar com o outro reforça a intimidade do casal e promove uma visão mais realista da vida conjugal.</p>
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		<title>Restless, Redenção</title>
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		<pubDate>Thu, 15 Dec 2011 11:45:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A palavra Restless que dá título ao último filme de Gus Van Sant é difícil de traduzir em português, embora a tradução oficial do filme optasse por Inquietos numa derivação correcta de Inquietude ou Inquietação. Inabilidade para estar parado, agitação &#8230; <a href="http://ruiferreiranunes.com/2011/12/15/restless-redencao/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=153&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A palavra <em>Restless</em> que dá título ao último filme de Gus Van Sant é difícil de traduzir em português, embora a tradução oficial do filme optasse por <em>Inquietos</em> numa derivação correcta de Inquietude ou Inquietação. Inabilidade para estar parado, agitação e movimento  permanente, sem nunca conseguir realmente repousar. De facto, <em>Restless</em> retrata na perfeição o estado interno quase constante dos adolescentes, mesmo quando estes aparentam estar mergulhados no mais profundo e subaquático dos mundos, alheados de toda a realidade excepto aquela que tem significado na construção das suas ilusões.</p>
<p><span id="more-153"></span></p>
<p>A adolescência é muitas vezes sentida pelos pais como um período penoso, de difícil entendimento, em que os adolescentes ziguezagueiam o controlo dos pais e surpreendem-nos com a mais destemida loucura ou doce gesto de afecto. Apesar do desconforto que sentimos, nós, os adultos, invejamos em grande medida os adolescentes. O seu lado pueril, a força bruta criativa, a ingenuidade desconcertante, a capacidade de acreditar no futuro e sobretudo, sobretudo a descoberta encantatória do amor.</p>
<p>Neste filme imperdível sobre a perda, Gus Van Sant mostra-nos dois adolescentes à procura de a resolver, encontrando nos velórios, nos locais de ritualização da morte ou na sua encenação, uma forma rebelde e criativa de negarem a evidência da sua realidade. Enoch perdeu os pais num acidente de viação em que ele ficou em coma não podendo testemunhar nem ritualizar a morte destes e Annabel sofre de um cancro com um prognóstico de três meses de vida. Tanto num caso como noutro, as figuras primordiais desapareceram ou estão completamente ausentes, como a mãe de Annabel.</p>
<p>Apesar de haver adultos por perto que os amam e tentam protege-los, Enoch e Annabel sentem-se profundamente sozinhos e desamparados no cenário árido da América de Portland. Curiosamente, um filme absolutamente comovente que traz de novo a relação amorosa ao centro do discurso cinematográfico, foi recebido de forma indiferente na América. Através da relação amorosa entre Enoch e Annabel surge a resolução da perda, o amor é redentor da sua (aparente) morte.</p>
<p>Sorrimos com os encontros de Enoch e Annabel, com a sua astúcia e autenticidade, interpretados com enorme sofisticação e realismo por Henry Hopper e Mia Wasikowska. Maravilhamo-nos com o imaginário adolescente, com o fantasma kamikaze amigo de Enoch, com a poesia das imagens de Van Sant, cuja paleta outonal reflecte os afectos encarcerados dos dois miúdos que explodem de forma inebriante na descoberta do amor.</p>
<p>Quando entram em contacto com os afectos, Enoch e Annabel não conseguem tolerar a raiva inerente à perda iminente do outro e dos sentimentos implícitos às suas próprias perdas, anteriores ao seu encontro, reveladas de forma inesperada pelo catalisador da paixão.</p>
<p>A raiva intolerável, a inquietude irrequieta e permanente, dão então lugar à aceitação. A uma aceitação da perda que só faz sentido porque é redentora, porque nos mostra internamente que o único sentido possível para a sobrevivência à morte é o significado afectivo da relação. Tal como no filme, a redenção da perda traz para junto de nós, outra vez, quem nós mais gostamos e quem gosta de nós e reorganiza o nosso real de forma mais significativa.</p>
<p>Apesar de Annabel morrer, Enoch já não está sozinho. Está acompanhado pelos outros e pelo amor de Annabel. Quando discursa na cerimónia fúnebre que ele tão bem preparou, nada consegue dizer&#8230; Não é preciso, todos percebemos que em certos momentos, não conseguir falar, tem mais significado que qualquer palavra.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/153/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=153&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Sangue do Meu Sangue</title>
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		<pubDate>Sat, 29 Oct 2011 12:16:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[dinâmica familiar]]></category>
		<category><![CDATA[social]]></category>
		<category><![CDATA[vinculação]]></category>

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		<description><![CDATA[O magnífico filme português Sangue do Meu Sangue apresenta-se pela voz dos seus actores como um filme sobre o amor incondicional entre vários membros duma família que vive em condições precárias num bairro de subúrbio lisboeta. O amor é retratado &#8230; <a href="http://ruiferreiranunes.com/2011/10/29/sangue-do-meu-sangue-2/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=77&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O magnífico filme português <em>Sangue do Meu Sangue</em> apresenta-se pela voz dos seus actores como um filme sobre o amor incondicional entre vários membros duma família que vive em condições precárias num bairro de subúrbio lisboeta. O amor é retratado como uma força maior, arcaica e visceral, capaz de ultrapassar todas as barreiras, desafios e sacrifícios, mesmo que estes impliquem o vexame, a humilhação, a perda da dignidade e da própria vida.</p>
<p><span id="more-77"></span></p>
<p>Numa entrevista recente no programa <em>Câmara Clara</em>, o realizador João Canijo, explicou de forma consistente não só o seu método de trabalho mas as referências aos clássicos gregos presentes no filme através da inscrição sucessiva dos elementos essenciais da tragédia grega.</p>
<p>Segundo Aristóteles, a tragédia deveria indiciar desde o início o desenlace trágico que resultaria do conflito entre o desafio colocado à personagem (<em>hybris</em>) e o destino (<em>anankê</em>). Este conflito desenvolver-se-ia num crescente de sofrimento (<em>pathos</em>) até chegar ao <em>climax</em>, ponto culminante da catástrofe. A <em>hybris</em> seria o sentimento motor da tragédia que conduz os seus heróis à violação da ordem estabelecida através duma acção ou comportamento que se assume como um desafio aos poderes instituídos.</p>
<p>Na obra de Canijo, o amor de uma mãe pela filha e de uma tia pelo sobrinho, desafia os poderes instituídos do Bairro Padre Cruz, personificados no chefe duma rede de traficantes de droga e num médico, também oriundo do mesmo bairro, mas que ascendeu a um estrato sócio-económico superior, metáfora representativa, do poder resultante da desigualdade social.</p>
<p>Na entrevista referida, Canijo comenta como lhe interessou retratar a possibilidade da existência deste amor, capaz de mover as personagens a estados limite, quando elas se debatem com a sua sobrevivência, numa luta diária entre a precariedade do trabalho, a promiscuidade das relações e a inserção num ambiente socialmente desfavorecido, numa alusão clara às problemáticas sociais levantadas pela actual crise dos modelos politico-financeiros.</p>
<p>A argumentação do problema sócio-afectivo é legítima mas pode conduzir-nos a pensar erroneamente que nos contextos sociais mais pobres, os transtornos derivados da perturbação do vínculo afectivo são necessariamente mais graves ou mais frequentes que nos estratos sócio-económicos mais elevados. Na verdade, as várias formas de perturbação da vinculação entre a pessoa que cuida e a criança, que posteriormente se reflectem nos padrões relacionais da última, são transversais a todos os estratos sociais e estão dependentes duma multiplicidade de factores que incluem não só os sócio-económicos, culturais, biológicos, mas também e essencialmente, a estrutura afectiva da pessoa cuidadora, a consistência do papel cuidador ao longo do crescimento, a dinâmica familiar, a capacidade de promover a autonomia emocional do sujeito, entre outros.</p>
<p>Por vezes, um elemento de referência estável durante o desenvolvimento como um mentor inspirador, um interesse particular que promova o sentimento de pertença a um grupo ou mesmo um papel derivado da estrutura resiliente do indivíduo(a), construída por oposição a um ambiente de crescimento desfavorável, podem reforçar a pessoa na sua autonomia e capacidade para amar.</p>
<p>Canijo não faz jus à sua teoria na concretização do próprio filme e confessa que os actores tiveram um papel crucial na construção dos diálogos e na resolução do argumento com um “final feliz” contrário às suas aparentes intenções. Em <em>Sangue do Meu Sangue</em>, o amor incondicional é transformador e salvífico, ele preserva a força que permite àquelas pessoas encarar um mundo hostil e desajustado ao seu redor mas pleno de significado no seu interior.</p>
<p>O Bairro Padre Cruz é um lugar degradado que reflecte a guettização dos grupos sociais retratados no filme e as estratégias de sobrevivência dos mesmos. Apesar da violência iminente na forma como algumas relações se estabelecem, resultante das práticas transgressoras e do aproveitamento dos escassos recursos, perspassa ao longo da narrativa o sentimento solidário entre os seus habitantes e a defesa incondicional dos que nos são mais queridos e mais desprotegidos. A desorganização do meio envolvente parece reforçar os laços afectivos, perante o isolamento e abandono a que a sociedade os vetou.</p>
<p>De um modo formalmente muito elaborado, Canijo entrecorta, sobrepõe e duplica planos que só mostram partes do que está acontecer, o que nas palavras do autor, instilam o espectador a fantasiar sobre o que não está na imagem e a participar na construção dos significados e na intensidade dos pressupostos trágicos do filme. O ritmo lento permite instalarmo-nos no quotidiano das personagens e ficarmos confrontados com o seu modo de vida, que a nós, portugueses, nos é tão familiar, mas também tão distante, quando dele não estamos conscientes, ou quando o confronto da precariedade das condições de vida nos é apresentado de forma dolorosa e cruel.</p>
<p>A multiplicidade formal reflecte as várias dimensões da questão amorosa e expõe a contradição do discurso de Canijo. Nos contextos considerados por muitos de nós como os mais desajustados, os afectos irrompem como elemento estabilizador e aglutinador, não só nas relações de sangue que formam o eixo central do filme, como nas relações entre os vizinhos, ou mesmo entre o mafioso/traficante e as suas filhas.</p>
<p>A tragédia grega tinha como função a catarse (<em>katharsis</em>), a purificação das emoções e paixões, idênticas às sentidas pelas personagens, efeito conseguido através do terror (<em>phobos</em>) e da piedade (<em>eleos</em>) que deve provocar nos espectadores. Na cena final assistimos arrepiados ao confronto entre a humilhação extrema e violência desmesurada resultante das condições do lugar e a força maior do amor capaz de vencer a mais terrível das provações.</p>
<p>Em <em>Sangue do Meu Sangue</em> somos confrontados com o poder dos afectos numa época que não assumimos muitas vezes a importância destes, embora os procuremos incessantemente. As defesas que muitos de nós construímos em adaptação ao mundo exterior impedem-nos de conseguir identificar esta <em>hybris</em>, o amor incondicional pelo outro, capaz de criar sentido numa realidade desagregada, subjugada ao consumismo esquizofrenante e num mundo em risco de se desmoronar, em que nos sentimos, tal como os personagens do filme, permanentemente alienados.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/77/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=77&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Depressão e Desemparo</title>
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		<pubDate>Mon, 11 Apr 2011 14:56:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[auto-estima]]></category>
		<category><![CDATA[depressão]]></category>
		<category><![CDATA[desamparo]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma das dificuldades no diagnóstico da depressão é a grande heterogeneidade de contextos e factores que podem despoletar as perturbações depressivas. Muitas vezes a depressão é precipitada por acontecimentos stressantes pontuais, mas que normalmente têm na base conflitos internos, dos quais os pacientes não estão conscientes ou procuram desvalorizar, tendo dificuldade em identificar as causas dos sintomas depressivos. Outras situações são claramente evidentes como as situações de perda, quer seja um divórcio ou separação, a morte de um ente querido ou a perda do emprego.</p>
<p><span id="more-59"></span></p>
<p>A depressão pode ser crónica ou circunstancial, apresentar sintomas mais ligeiros ou mais severos, estar enquadrada numa perturbação mental mais grave como a bipolaridade ou uma psicose, ser induzida pelo consumo de substâncias, estar associada a situações de doença, período pós-parto ou motivada por factores sócio-económicos como os decorrentes da situação de grande instabilidade em que vivemos neste momento. Em qualquer dos quadros, os aspectos afectivos ocupam um peso relevante, tanto na forma como nos validamos como nas relações com os outros. Por  vezes as pessoas deprimem porque se sentem sós ou porque estão a atravessar crises existenciais que as confrontam com as suas vulnerabilidades e com o sentido da sua vida. Apesar de estarem comprovados factores genéticos e bio-químicos que predispõem certas pessoas para a depressão, não são tão decisivos como noutro tipo de patologias como a bipolaridade.</p>
<p>Os sintomas normalmente associados à depressão são as características melancólicas. A diminuição ou ausência da capacidade para experimentar prazer (astenia) e a falta de reactividade aos estímulos habitualmente agradáveis são especificados pelo Manual de Psiquiatria Americana DSM-IV como critérios para o diagnóstico deste tipo de depressão cujo grau de severidade pode induzir a pessoa a deixar de conseguir funcionar a nível social, ocupacional ou escolar. A perda do prazer é normalmente acompanhada de tristeza e sentimentos de culpa excessivos, perda do apetite, acordar pelo menos duas horas antes do habitual, sentir uma grande agitação ou lentificação psicomotora.</p>
<p>Freud teorizou que nos períodos de luto, a pessoa incorpora a representação da pessoa amada e identifica-se com esta com vista a evitar sentir a perda. Neste processo nós tornamo-nos objecto dos sentimentos negativos que inconscientemente guardamos relativamente às pessoas que amamos. Esta identificação gera ressentimento pela perda e sentimentos de culpa por situações reais ou imaginárias relativas às relações com a pessoa que se perdeu. Segundo Freud, este período de incorporação da pessoa amada seria seguido dum período de luto, em que a pessoa recorda a pessoa perdida e desta forma separa-se da representação interna da mesma. No caso das pessoas muito dependentes esta separação fica comprometida dando origem a situações de auto-punição, culpa, auto-abuso e depressão.</p>
<p>Estudos posteriores de análise dos sonhos de pessoas deprimidas encontraram como temas recorrentes a perda e o falhanço e não a zanga e hostilidade contra o próprio, como Freud havia enunciado. Contudo, as pessoas deprimidas expressam com frequência sentimentos de zanga e hostilidade contra os outros, o que poderá ser entendido como uma projecção do mal-estar interno e dos sentimentos de culpa. Por outro lado, as pessoas co-dependentes tendem de facto a deprimir no seguimento duma rejeição. A perda e o falhanço são encarados como falhas pessoais que levam ao abandono interno e à desistência de si e dos outros.</p>
<p>As perturbações depressivas podem ter de facto outro tipo de sintomas considerados pelo DSM-IV como atípicos por oposição à representação melancólica da depressão. As características atípicas incluem maior reactividade do humor, em particular à rejeição interpessoal percebida, aumento do peso e do apetite, hipersónia (dormir mais horas do que o habitual), sensação de peso ou inércia nos braços e nas pernas.</p>
<p>Teorias posteriores da depressão colocaram enfâse na estrutura interna do indivíduo e na forma como este se posiciona face ao mundo. Autores cognitivistas como Beck consideraram que os indivíduos que tendem a deprimir adquiriram um esquema mental negativo decorrente da perda dum progenitor, ou outro tipo de traumas ocorridos na infância e adolescência como por exemplo a rejeição dos colegas de escola, negligência dos pais ou professores, abuso etc. Esta visão negativa do próprio e do mundo é reactivada  cada vez que são encontradas situações que se assemelham às vividas no passado.</p>
<p>Por outro lado, esquemas defensivos decorrentes das situações traumáticas que visam a sobrevivência num mundo entendido como hostil deixam a pessoa numa posição de maior vulnerabilidade. Por exemplo, nas sociedades actuais, onde que existe uma grande prevalência do narcisismo, é frequente depararmo-nos com indivíduos que  incorporam a ideia de que têm de ser perfeitos para que possam gostar deles, ficando dependentes da aprovação dos outros para se sentirem bem consigo próprios e logo mais vulneráveis à rejeição.</p>
<p>Segundo Beck, uma visão negativa de si próprio e do mundo pode gerar expectativas negativas sobre o futuro e despoletar esquemas mentais que distorcem a realidade, confirmando esta visão pessimista. São exemplos destes esquemas a inferência arbitrária de conclusões negativas sobre o próprio ou sobre os outros a partir de dados insuficientes ou seleccionados de forma a confirmarem o negativismo. A minimização de aspectos positivos, as inferências a partir da  maximização de detalhes negativos, ou a generalização a partir destes, dificultam a capacidade de julgar e avaliar a realidade.</p>
<p>Para Bowlby, o autor que desenvolveu a teoria da vinculação, a qualidade da relação com as pessoas mais próximas da criança tem um papel decisivo na construção dos alicerces da confiança no próprio e nos outros. Uma criança que é amada e validada pelos seus cuidadores de forma consistente acabará por desenvolver mecanismos internos de auto-estima e auto-confiança que lhe permitem responder de forma mais resiliente em situações de stress.</p>
<p>As situações de desamparo emocional são hoje extremamente comuns e são resultado de relações paradoxais ou abandónicas na infância e adolescência. Por vezes os pais estão demasiado ocupados consigo próprios ou com a logística profissional e familiar. Apesar de cuidarem das crianças, não as validam relativamente ao que elas sentem e precisam, deixando-as demasiado entregues a si próprias na construção do eu e na descodificação das relações com o mundo exterior. O amparo emocional promove um eu mais coeso, capaz de resistir às perdas, às situações de rejeição e aos obstáculos do real porque é capaz de julgar o mundo e a si próprio de forma adequada, identificando e relativizando os aspectos que lhe são exteriores e confiando na sua capacidade para os ultrapassar.</p>
<p>A depressão afecta 20% da população portuguesa que procura como tratamento preferencial a medicação anti-depressiva. Nas depressões reactivas causadas por factores exógenos, esta medicação pode ser um auxiliar fundamental para os pacientes recuperarem da doença. Contudo, a maioria das pessoas que sofrem de depressão apresentam um padrão crónico ou cíclico, em que a depressão surge como uma defesa que decorre de factores endógenos e das vulnerabilidades acima descritas. O imediatismo da medicação anti-depressiva pode promover a ideia de que os factores causadores da doença são exteriores à pessoa, como é tão frequente acontecer em Portugal em que culpamos o país ou os outros do nosso mal-estar.  Pelo contrário, o recurso exclusivo à medicação reforça muitas vezes a  estrutura narcísica dos pacientes, em lugar de serem investigados os conflitos internos que estão na origem da doença.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/59/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=59&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Sexualidade Feminina e o Cisne Negro</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Feb 2011 19:15:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[controlo]]></category>
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		<description><![CDATA[Numa altura em que a sexualidade feminina parece ter-se tornado num apetecível objecto da comunidade científica e dos media, o filme  Cisne Negro confronta-nos com algumas questões do desenvolvimento sexual das mulheres recorrendo ao ballet clássico como metáfora perfeita do &#8230; <a href="http://ruiferreiranunes.com/2011/02/21/sexualidade-feminina-e-o-cisne-negro/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=56&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Numa altura em que a sexualidade feminina parece ter-se tornado num apetecível objecto da comunidade científica e dos media, o filme <em> Cisne Negro</em> confronta-nos com algumas questões do desenvolvimento sexual das mulheres recorrendo ao ballet clássico como metáfora perfeita do controlo castrador do corpo.</p>
<p><span id="more-56"></span></p>
<p>Embora não sendo a questão central da história, a sexualidade de Nina, a bailarina escolhida para desempenhar o papel duplo dos cisnes branco e negro, acaba por ser o maior obstáculo à sua capacidade de interpretar o cisne negro que, na versão do bailado, consegue seduzir e enganar o príncipe, levando-o a trair o juramento de amor com o cisne branco, figura simbólica do amor puro, monogâmico, que assim sucumbe às forças do mal, representado na capacidade sedutora e destrutiva do cisne negro.</p>
<p>A história do bailado tem de facto uma analogia com uma determinada visão da sexualidade da mulher que ainda perdura hoje. A mulher pura e casta que guarda a sua sexualidade intacta é punida pela mulher sexualizada, destruidora do amor. A história do cinema está repleta de referências a estas mulheres cuja capacidade sedutora está irremediavelmente ligada à destruição da vida, dos homens e das mulheres que representam o papel socialmente desejável ou em termos genéricos, o bem (social). São exemplos desta representação do feminino, os clássicos que marcaram as gerações dos anos 50 e 60, Esplendor na Relva, Um Eléctrico Chamado Desejo ou Tudo sobre Eva, entre muitos outros.</p>
<p>Não é por acaso que o argumentista escolheu<em> O Lago dos Cisnes</em> para ilustrar a perturbação do desenvolvimento de Nina, cativada na relação com uma mãe psicótica. O conflito entre a estrutura mental rígida derivada da relação com a mãe e as exigências do coreógrafo, representativas do poder do homem, da sexualidade e do perfeccionismo da dança, levam Nina a um stress emocional extremo, potenciador de sintomas psicóticos que a acabarão por destruir. Ao longo do filme, Nina sofre de alucinações que gradualmente invadem o real, destrutivas do eu e dos seus rivais arcaicos (as colegas e a mãe), colando-se assim à personagem do cisne branco e à história do bailado.</p>
<p>Embora exista um corpo de literatura científica que de forma consistente aponta para a predisposição genética no desenvolvimento da esquizofrenia, o stress psicológico continuado causado por factores sociais e familiares parece ter um papel preponderante na produção das patologias psicóticas.</p>
<p>A mãe controladora que procura cristalizar a relação com a filha e impedi-la de crescer, sexualizar-se e assim rivalizar consigo, remete-nos facilmente para o nosso referencial cultural onde as mães ultra-protectoras retêm o desenvolvimento da sexualidade dos seus filhos dando origem a tantos casos de anorexia, bulimia, disfunções sexuais, bem como falta de auto-estima, auto-confiança e especialmente a sensação de permanente inadequação perante o real.</p>
<p>Por mais que tente, Nina sente-se sempre angustiada pela sua imperfeição e perseguida pelo desejo de ser perfeita e assim obter o reconhecimento de si mesma, através dos outros. Por outro lado, Nina sente-se desadequada perante os outros, que estranham a ausência de desejo e a falta de competências sociais da bailarina.</p>
<p>O meio da dança não é somente retratado como potenciador da patologia mas essencialmente como espelho desta. O controlo escrupuloso do corpo, a idealização deste, o perfeccionismo na execução, são metáforas da estrutura interna de Nina, decorrentes da falta de gratificação narcísica. As estratégias de controlo da mãe como as da dança são internalizadas por Nina na sua busca da perfeição.</p>
<p>Para sentir prazer ou ultrapassar os seus medos, Nina precisa de se descontrolar e transgredir a sua estrutura, transformando o real nas suas fantasias e alucinações. Quando tenta explorar a sexualidade, Nina fá-lo de forma desorganizada e polimórfica. A retenção do desenvolvimento sexual potencia o seu lado auto-destrutivo, quando contraposta à colega, aparente rival (representação do cisne negro), que possui uma sexualidade integrada, objecto de inveja e de fascínio.</p>
<p>Desta forma, o filme inverte de alguma maneira a representação clássica da sexualidade da mulher enquanto destruidora do bem. O cisne branco acaba por ser vítima da sua assexualidade e da sua desconexão com o real. Nina não está longe do que muitas mulheres sentem relativamente à sexualidade, o medo terrível de perder o controlo. A entrega ao outro é assim subentendida como uma forma sublimada de auto-destruição.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/56/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=56&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Facebook Sem Rede</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Nov 2010 11:37:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[identidade]]></category>
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		<description><![CDATA[Diziam as más-línguas que o filme a Rede Social de David Fincher iria-nos retratar Mark Zuckerberg, o fundador do  facebook, como alguém ambicioso que não olharia a meios para atingir os seus fins, traindo os melhores amigos, roubando ideias a &#8230; <a href="http://ruiferreiranunes.com/2010/11/14/facebook-sem-rede/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=51&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Diziam as más-línguas que o filme a <em>Rede Social</em> de David Fincher iria-nos retratar Mark Zuckerberg, o fundador do  facebook, como alguém ambicioso que não olharia a meios para atingir os seus fins, traindo os melhores amigos, roubando ideias a outros, incapaz de estabelecer relações afectivas.</p>
<p>O filme de Fincher é um retrato fidedigno do funcionamento da sociedade americana extensível ao mundo em que vivemos. O enfoque de Mark é o sucesso, o reconhecimento e a validação pessoal. Tal como referia o psicanalista António Coimbra Martins numa recente entrevista ao Expresso, “o que nos move agora é o êxito e o medo de falhar. Nas sociedades de sucesso a vergonha substituiu a culpa”.</p>
<p><span id="more-51"></span></p>
<p>Mark não sente culpa quando toma as decisões que o tornaram no bilionário mais jovem da história recente. Ele está demasiado estimulado com a construção e desenvolvimento dum sistema que está curiosamente a mudar a nossa vida social. Ele está empenhado em suceder perante os seus pares e alcançar o poder corporativo. Ele está empenhado em suceder perante a rapariga que o rejeitou por ser demasiado estranho, arrogante e desajeitado.</p>
<p>No entanto, numa das cenas do processo que o opõem ao seu ex-sócio, a arrogância do seu discurso, intelectualmente brilhante, é interrompida pelo olhar do amigo traído, num momento de confrontação afectiva. Tal como com a rapariga que o rejeita, Mark não consegue gerir o mundo dos seus afectos. Provavelmente não consegue identifica-los de forma a agir congruentemente com estes. Só lhe resta mesmo os canais virtuais do facebook.</p>
<p>Mas será Mark Zuckemberg um sacana sem sentimentos? Parece-me que Mark é mais o jovem adulto desamparado cujo sentir não foi suficientemente validado. Mark está sozinho num mundo cruel sem saber como se aproximar dos outros para além de os vencer. No final do filme somos confrontados com os sentimentos que restam a Mark, está sozinho e deseja proximidade com os outros.</p>
<p>O facebook é em larga medida uma ferramenta construída para resolver esta necessidade de proximidade e conexão. Nas projecções virtuais o eu multiplica-se em argumentos para convencer os outros, o privado passa a ser público, a identidade virtual confunde-se com o real.</p>
<p>No mundo real a esfera privada está protegida pelas decisões que tomamos quando nos revelamos aos outros. A gestão da nossa privacidade protege os nossos sentimentos e reforça a diferença entre quem sou, o que os outros são, e como nos vêem. A proximidade resulta do desejo de conhecer o que não se conhece e que é diferente de nós. A proximidade resulta também do desejo que os outros reconheçam que somos diferentes e que valemos a pena conhecer e possivelmente amar.</p>
<p>O facebook espelha este desejo mas está limitado por um eu fragmentado que não corresponde ao que eu sou no real. Um eu com mais história e decisões e tal como Mark com desejo de afecto real.</p>
<p>À imagem de Mark, os membros do facebook ficam expostos pela imagem que criaram e pela forma como gerem facilmente as relações virtuais, mas não tanto pelos seus sentimentos e identidade reais. No facebook eu posso apagar num segundo um amigo e ganhar outro, posso até entrar em contacto com o passado que já estava arrumado e ser seduzido pela fantasia que construo a partir da imagem do outro.</p>
<p>O facebook pode ser de facto uma janela para o exterior, para partilhar ideias, criar petições e abrir caminho para o sucesso mas não substitui a inevitável confrontação com a verdadeira realidade do outro e de nós próprios. Estou apenas escondido a espreitar pelo buraco da fechadura para um mundo tão fascinante como imaginário.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/51/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=51&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Construir a Intimidade</title>
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		<pubDate>Thu, 14 Oct 2010 12:53:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A intimidade parece ser algo evidente e intrínseco à relação de maior proximidade. Contudo é frequente observar a dificuldade das pessoas com a proximidade emocional. Alguns casais podem estar juntos durante anos com pouca ou nenhuma intimidade ou mesmo proximidade. &#8230; <a href="http://ruiferreiranunes.com/2010/10/14/construir-a-intimidade/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=49&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A intimidade parece ser algo evidente e intrínseco à relação de maior proximidade. Contudo é frequente observar a dificuldade das pessoas com a proximidade emocional. Alguns casais podem estar juntos durante anos com pouca ou nenhuma intimidade ou mesmo proximidade. Embora a intimidade implique proximidade, estes dois conceitos são diferentes.<span id="more-49"></span></p>
<p>A dificuldade com a proximidade está relacionada com o aparente conflito entre duas forças vitais inerentes à estrutura psicológica do indivíduo: a persecução da individualidade/ identidade próprias e a necessidade de proximidade com o outro e consequente sentimento de pertença ao grupo.</p>
<p>Para algumas pessoas a proximidade com o outro parece pôr em risco a sua individualidade. O receio de serem controlados pelo outro, anulados na relação ou mesmo sintomas mais arcaicos como o medo de serem engolidos ou abandonados pelo outro (medo da morte) levam estas pessoas a sabotar as relações ou a procurarem constantemente defenderem-se de maior  proximidade mesmo quando estão em relação.</p>
<p>A capacidade para estarmos próximos de alguém está directamente relacionada com a diferenciação do indivíduo. Este conceito foi desenvolvido pelo teórico de terapia familiar Murray Bowen e posteriormente actualizado na perspectiva da relação entre intimidade e sexualidade por David Schnarch. A diferenciação implica a capacidade para separar os sentimentos dos pensamentos e agir de acordo com um equilíbrio entre o que sentimos e o que objectivamente pensamos sobre a nossa realidade e a dos outros.</p>
<p>A diferenciação entre o que sentimos e pensamos resulta da forma como nos diferenciamos da nossa família de origem e reflecte-se na forma como nos interrelacionamos. Os indivíduos cujas famílias não estimularam a autonomia emocional e pensamento próprio possuem menor diferenciação e tendem a estar em relações de fusão e dependência. São as pessoas que têm dificuldade em emitir opiniões próprias, a confundir o que pensam com o que sentem, a agir em conformidade com os outros ou a assumir uma pseudo-independência agindo em contra-corrente. Os indivíduos diferenciados são os capazes de emitir opiniões próprias, separar o que sentem do que pensam, tolerar a sua ansiedade porque conseguem reflectir sobre ela. Estas são as pessoas que podem estar próximas das outras sem recear perder a sua individualidade. São as pessoas que não se sentem alienadas ou zangadas se o outro não concorda com elas tal como não sentem receio de contacto e consenso com o outro.</p>
<p>Nas famílias pouco diferenciadas o pai senta-se sempre na mesma cadeira à mesa para ser reconhecido enquanto figura de autoridade. A sua identidade está dependente da relação que os outros lhe auferem. Nas relações pouco diferenciadas cada um é suposto ter um lugar que define o seu papel e a sua identidade. Na família tradicional portuguesa, o homem era suposto sustentar a família e essa condição (entre outras) permitia-lhe ter mais poder em relação à mulher que se acomodava ao papel de mãe e dona de casa. Esta relação de poder tornava o homem frequentemente mais distante da mulher que procurava poder e compensação afectiva na protecção e controlo dos filhos e na influência indirecta nas decisões do marido.</p>
<p>Nesta situação todos os membros da família se definiam e tentavam validar-se através da relação ficando reféns da resposta dos outros membros. A intimidade fica neste caso comprometida porque cada pessoa  fica dependente de como o outro reage o que se torna particularmente difícil em momentos de tensão.</p>
<p>Os casais por vezes moldam-se um ao outro para poder reduzir a ansiedade e manter as suas identidades estáveis. Nestas relações de fusão emocional quando uma das partes se torna mais forte a outra sente-se dominada ou controlada. Secretamente desejamos que a outra pessoa seja tão insegura como nós para nos sentirmos mais seguros acabando por cair numa competição velada com o parceiro(a). Quando estamos dependentes do outro acabamos por omitir ou recriar aspectos de nós próprios para podermos ter a aceitação do outro.</p>
<p>A intimidade é por vezes confundida com aceitação, validação e reciprocidade por parte do outro porque são estas funções que as pessoas procuram quando decidem revelar informação pessoal pertinente. Intimidade não é a mesma coisa que proximidade, vinculação afectiva ou cuidado do outro, embora estes factores possam e devam estar presentes na relação. Intimidade envolve a consciência de que eu sou separado do outro com partes que podem ser partilhadas.</p>
<p>A intimidade aprofunda-se quando somos capazes de nos auto-validar e como tal não recear discutir as nossas ideias com o outro ou revelarmos os aspectos mais vulneráveis de nós próprios. A intimidade implica também a noção que existe um equilíbrio de poder na relação com o parceiro(a). Este equilíbrio acontece por não nos sentirmos ameaçados pelo outro mesmo quando não partilhamos das mesmas ideias ou sentimentos. As famílias portuguesas têm evoluído neste sentido embora ainda procurem a validação através do outro, herdada do modelo tradicional.</p>
<p>Por outro lado este equilíbrio permite uma maior abertura na medida em que eu posso transformar aquilo que eu sou e aquilo que eu penso apreendendo a opinião do outro. O que eu quero para mim passa a incluir o que o outro quer para si.</p>
<p>Muitos terapeutas prescrevem a comunicação funcional para melhorar a intimidade do casal. Mas a comunicação pode acontecer sem existir intimidade. A comunicação existe nos silêncios do casal, na expectativa que o outro tem de nós quando decide já não nos ouvir, ou sequer falar. Intimidade implica a revelação de informação pessoal sem receio da resposta do outro. Muitas vezes a intimidade desenvolve-se através da confrontação de posições, da negociação da relação, da auto-validação de cada indivíduo através da revelação unilateral dos seus pensamentos e sentimentos. Segundo Scharnch, a intimidade é um processo em que simultaneamente nos confrontamos connosco mesmos enquanto nos revelamos ao outro.</p>
<p>Nas famílias e nos casais pouco diferenciados quando uma pessoa fica ansiosa a(s) outra(s) também ficam. A ansiedade torna-se contagiosa e difícil de tolerar dando por vezes origem a situações de agressividade e abuso nas relações. As pessoas diferenciadas podem modular os seus pensamentos e sentimentos e tolerar melhor a sua ansiedade, deixando prevalecer o julgamento. A capacidade para tolerar a própria ansiedade sem se sentir em risco perante o outro acaba por alargar o campo da intimidade e da possibilidade de poder aceitar e amar o outro tanto como amar-se a si mesmo.</p>
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		<title>A Vida Sexual do Casal</title>
		<link>http://ruiferreiranunes.com/2010/03/10/a-vida-sexual-do-casal/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Mar 2010 12:48:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[casal]]></category>
		<category><![CDATA[relação]]></category>
		<category><![CDATA[sexualidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Muitos leitores têm colocado diversas questões relativas à sexualidade no contexto da relação, em particular as questões relativas à falta de desejo. Na sua última obra intitulada Resurrecting Sex (2002), David Schnarch,  um autor de referência na área da sexualidade &#8230; <a href="http://ruiferreiranunes.com/2010/03/10/a-vida-sexual-do-casal/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=45&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Muitos leitores têm colocado diversas questões relativas à sexualidade no contexto da relação, em particular as questões relativas à falta de desejo.</p>
<p>Na sua última obra intitulada <em>Resurrecting Sex </em>(2002), David Schnarch,  um autor de referência na área da sexualidade e terapia familiar, apresenta em linguagem acessível um modelo para ajudar os casais a compreender e ultrapassar os problemas sexuais.<span id="more-45"></span></p>
<p>Schnarch considera que o funcionamento sexual da relação é um reflexo da forma como nos posicionamos face à outra pessoa e da maneira como toleramos a nossa ansiedade no contexto da relação. Por outras palavras, a pessoa mais segura de si não ficará dependente da resposta do parceiro(a) para validar o seu comportamento e o seu desempenho sexual. A pessoa mais diferenciada será aquela que melhor tolera e aceita as suas fragilidades e como tal tem melhor capacidade para dialogar com o parceiro(a) sem se sentir posta em causa.</p>
<p>Por exemplo, se um dos elementos do casal depende da resposta do outro para se sentir atractivo e desejado, ficará sempre refém do comportamento do primeiro e da ansiedade que poderá sentir se este se afasta temporariamente mesmo que por outro tipo de razões.</p>
<p>A pessoa mais diferenciada tem melhor capacidade para manter-se calma e em consonância com os seus valores quando é desafiada pelo parceiro(a). A pessoa que é capaz de se confrontar consigo mesma consegue ficar menos reactiva quando o parceiro(a) fica ansioso ou provocador. A capacidade para tolerar o desconforto da diferença de opiniões permite à pessoa afirmar-se na relação, crescer e ultrapassar os problemas que possam surgir através da capacidade para aceitar que o outro é diferente dela.</p>
<p>Na obra referida, Schnarch estabelece um modelo para resolução dos problemas sexuais  dos casais organizado em três eixos fundamentais: 1) optimização da capacidade de resposta do corpo; 2) optimização da estimulação recebida e 3) optimização dos sentimentos, emoções e pensamentos, incluindo a relação com o parceiro(a).</p>
<p>A resposta do corpo está condicionada por factores fisiológicos decorrentes da idade, níveis hormonais e uma variedade de questões médicas que podem interferir no desempenho sexual. Um exame médico completo poderá identificar algumas das causas das dificuldades sexuais. Contudo, convém lembrar que o corpo não opera desligado da mente e que grande parte dos problemas sexuais têm uma componente psicológica. Até para os problemas estritamente médicos existe sempre uma resposta emocional. Nos problemas sexuais a componente emocional estará invariavelmente presente quer seja como causa ou como resultado.</p>
<p>Scharnch considera que a estimulação sexual implica que os parceiros sejam tão voluntariosos para dar prazer como para receber. O autor considera que a conexão emocional durante o sexo é um pressuposto necessário para optimizar a estimulação sexual. Dar as mãos ou olhar nos olhos durante a relação sexual pode ajudar a retomar a conexão emocional quando esta se perde, como por exemplo nos casos em que a pessoa tem dificuldade em associar o acto sexual à expressão de afecto pelo outro. A quantidade e a qualidade da estimulação sexual estão muitas vezes relacionados com a disponibilidade para ir ao encontro do outro e das iniciativas que este possa tomar. Uma atitude não defensiva e um maior investimento nos preliminares ajudam o corpo (e a mente) a descontrair e facilitam a resposta sexual.</p>
<p>A estimulação sexual do casal está claramente associada aos pensamentos, sentimentos e emoções decorrentes do funcionamento da relação. Os casais que têm por hábito partilhar actividades, apoiarem-se mutuamente nos momentos difíceis e colaborarem nos processos de decisão sentem-se mais próximos emocionalmente e mais disponíveis sexualmente. Se uma das  pessoas está zangada, frustrada ou ressentida com a outra torna-se muito difícil a aproximação e tende diminuir o desejo sexual. Lidar com os problemas que despoletam sentimentos negativos  e aceitar falar sobre as razões de cada um numa atitude conciliatória e não acusatória promove a auto-estima de ambos os membros do casal e reforça a intimidade.</p>
<p>Schnarch sublinha as vantagens dos casais expandirem o seu reportório de comportamentos sexuais, experimentando situações em que possam explorar a forma como cada um se pode expressar através do sexo, incluindo fantasias e aspectos transgressores que tornam a relação sexual mais erótica. O erotismo é uma experiência subjectiva e reveladora do nosso mundo interior. A capacidade para partilhá-la com o parceiro(a) reforça os laços afectivos ao mesmo tempo que promove a aceitação do outro como um todo.</p>
<p>O comportamento sexual é em grande parte resultado da relação que temos connosco mesmo e  da forma como nos vemos a nós e aos outros. Muitas vezes as pessoas procuram justificar os seus problemas devido a condicionantes psicológicos, aspectos culturais e sociais. Schnarch considera que o significado dos problemas sexuais não é necessariamente a causa destes mas antes o resultado. Por exemplo o significado atribuído à falta de prazer na relação pode reforçar o problema e condicionar a forma de o resolver.</p>
<p>Melhorar a relação sexual implica tolerar maior conexão emocional e capacidade para arriscar ser diferente, reconhecendo que podemos mudar sem receio de perder a nossa identidade. A dificuldade de alterar o comportamento sexual reside precisamente na relação intrínseca entre o que nós somos e como nos comportamos sexualmente. Segundo Schnarch, modificar o comportamento sexual  implica mudar aquilo que eu sou e a relação com o outro e este será o maior desafio colocado nos problemas da sexualidade.</p>
<p>Referências:</p>
<p>Schnarch, David (2002). <em>Resurrecting sex</em>. New York: HarperCollins Publishers.</p>
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		<title>Abuso Disfarçado de Amor</title>
		<link>http://ruiferreiranunes.com/2010/01/13/abuso-disfarcado-de-amor/</link>
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		<pubDate>Wed, 13 Jan 2010 18:56:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[abuso]]></category>
		<category><![CDATA[relação]]></category>
		<category><![CDATA[violência]]></category>

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		<description><![CDATA[“&#8230;Ele faz-me constantemente sentir que me ama mais do que eu a ele. Faz uma cena de ciúmes se eu olho para outro homem, quer ver as mensagens no meu telemóvel, telefona-me várias vezes durante o dia para saber onde &#8230; <a href="http://ruiferreiranunes.com/2010/01/13/abuso-disfarcado-de-amor/">Continuar a ler <span class="meta-nav">&#8594;</span></a><img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=43&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“&#8230;Ele faz-me constantemente sentir que me ama mais do que eu a ele. Faz uma cena de ciúmes se eu olho para outro homem, quer ver as mensagens no meu telemóvel, telefona-me várias vezes durante o dia para saber onde estou e o que estou a fazer. Ele amua se eu não estou de acordo com os seus planos ou se expresso uma opinião diferente. Ele mostra-me as fotografias das suas antigas namoradas e relata pormenores das relações. Zanga-se comigo ou fica irritado por motivos alheios às minhas intenções. Parece não querer escutar os meus argumentos nem valida os meus sentimentos. Faz-me frequentemente sentir culpada!&#8230;” (relato ficcionado baseado em relatos reais)<span id="more-43"></span></p>
<p>Quando falamos em abuso numa relação tendemos a imaginar situações de agressividade óbvia como insultar a pessoa, agredir alguém fisicamente, rebaixar ou humilhar o parceiro(a), ameaçar ou fazer chantagem emocional.</p>
<p>Contudo, os comportamentos abusivos numa relação podem tomar formas subtis que, de uma maneira velada, mas persistente, acabam por causar danos psicológicos tão ou mais destrutivos que a agressividade explícita.</p>
<p>As situações de abuso estão sempre relacionadas com a dinâmica entre poder pessoal e poder sobre o outro. Numa relação saudável o poder está equilibrado, existe reciprocidade, respeito pelas opiniões do outro, empatia e partilha nas decisões e tarefas da conjugalidade. Na relação abusiva, uma das pessoas tenta controlar a outra com vista a sentir maior poder pessoal e segurança interna em relação a si como à própria relação.</p>
<p>O reconhecimento das formas de abuso mais subtis torna-se mais difícil por se confundir muitas vezes com padrões culturais socialmente aceites, herdeiros da ideia da relação como forma de posse sobre o outro, cuja dinâmica é privada e como tal está protegida do exterior. Uma cena de ciúmes ainda é vista como prova de amor, mesmo que dela resulte a imposição de condições ao comportamento do outro e a limitação da sua vontade ou liberdades pessoais.</p>
<p>Por outro lado, com o tempo, a pessoa abusada tende a adaptar-se ao comportamento abusivo do parceiro(a) e a aceitá-lo como condição para permanecer na relação. As tentativas logradas de se fazer ouvir dão lugar a cedências ao outro e à instalação de dúvidas sobre os nossos actos e intenções, o que resulta numa forma de diminuição de poder pessoal, alteração da percepção do abuso e consequente esvaziamento emocional.</p>
<p>São vários os sintomas de abuso pouco perceptível numa abordagem mais superficial:</p>
<p>— Uma das pessoas fica frequentemente irritada ou zangada com o parceiro(a). Perante a reacção surpreendida do parceiro, nega que está zangado e faz o outro sentir-se culpado do sucedido.</p>
<p>— Quando a pessoa abusada tenta expressar os seus sentimentos, o abusador recusa-se a valida-los e até a conversar sobre a situação criando no primeiro uma sensação de impotência.</p>
<p>— A pessoa abusada sente-se frequentemente perplexa ou frustrada com as respostas do abusador, não consegue fazê-lo compreender as suas intenções.</p>
<p>Muitas vezes, a pessoa abusada sente-se frustrada não tanto pela forma como a relação decorre mas mais pela manipulação que o parceiro(a) faz da realidade levando-a a sentir-se culpada. Por vezes questiona-se se há algo de errado consigo ou se deveria sentir-se tão mal. O abusador raramente partilha os seus pensamentos e sentimentos com o parceiro(a), parece ter uma posição oposta nos mais diferentes assuntos, fazendo prevalecer a ideia de que ele está certo e o outro errado. Por vezes a pessoa abusada questiona-se se o outro a vê como alguém com vontade e existência separados.</p>
<p>Quando alguém faz exigências pouco razoáveis como a dedicação de todo o tempo livre ao outro ou uma atenção constante às suas necessidades diárias em que nunca se expressa reconhecimento ou satisfação, estamos perante uma forma de abuso emocional.</p>
<p>A critica e a negação das necessidades do outro são formas de controlar a relação tão graves como controlar as acções e movimentos de alguém. O abusador tende com frequência a distorcer e atacar a percepção da realidade do parceiro(a). Expressões como “Tu és tão sensível, não deverias ter ficado magoado, que reacção tão exagerada!&#8230;” desvalorizam e minimizam a resposta afectiva do outro e são destrutivas da intimidade.</p>
<p>Com frequência o abuso verbal e emocional conduzem a situações de violência doméstica. Facilmente o abusador exalta-se e perde o controle sobre os seus impulsos passando ao insulto, à agressão física ou à humilhação em público. Nestas situações, o agressor justifica o seu comportamento imputando culpa à vítima.</p>
<p>A intensidade da angustia da vítima é normalmente determinada pela extensão e intensidade do abuso. Qualquer tipo de abuso é contrario à comunicação saudável, à intimidade e à valorização e crescimento da pessoa. O reconhecimento do abuso é doloroso e implica a perda das ilusões e expectativas que motivaram a relação. Contudo, por mais difícil que seja, o reconhecimento do abuso permite restaurar a integridade física e emocional da pessoa abusada e recuperar o seu direito a ser amado e respeitado com dignidade.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/ruiferreiranunes.wordpress.com/43/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=ruiferreiranunes.com&#038;blog=29796171&#038;post=43&#038;subd=ruiferreiranunes&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Ejaculação Precoce</title>
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		<pubDate>Fri, 06 Nov 2009 11:45:40 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rui Ferreira Nunes</dc:creator>
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		<category><![CDATA[casal]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Em Portugal a aprendizagem da sexualidade está ainda caracterizada pela clandestinidade, por sentimentos de vergonha e pudor associados às práticas sexuais e em alguns contextos o sexo é sinónimo de pecado, sujidade e impureza. A privacidade dos adolescentes não é muitas vezes respeitada pelas famílias cada vez mais obsessivas com o controle sobre os filhos. Os rapazes têm frequentemente dificuldade em se masturbar de forma descontraída com receio que as mães apareçam de surpresa no quarto. Mesmo quando começam a namorar os jovens portugueses estão normalmente sujeitos a terem as primeiras relações sexuais nas casas dos pais, no carro ou em situações que despoletam um nível elevado de adrenalina ao qual se acrescenta a natural ansiedade de desempenho resultante das primeiras experiências sexuais.<span id="more-41"></span></p>
<p>Não é por isso de admirar que em contextos em que as práticas sexuais estão sujeitas a tantos restringimentos que as relações sexuais sejam optimizadas e que a ejaculação aconteça de forma prematura como resposta às situações referidas. No caso de Portugal, depois das primeiras experiências sexuais, os rapazes heterossexuais têm alguma dificuldade em manter uma vida sexual activa mesmo quando estão em relação. Não só porque vivem até tarde em casa dos pais mas também porque as raparigas por razões culturais muitas vezes procuram valorizar-se perante os rapazes, usando a sua (in)disponibilidade sexual como forma de manipular a relação e o jogo da sedução. Curiosamente os homens homossexuais não tendem a ter problemas de ejaculação precoce devido à facilidade com que encontram parceiros para sexo e ao intenso treino adquirido nos primeiros anos de actividade sexual.</p>
<p>Obviamente a ejaculação precoce não é só um problema dos homens portugueses, embora a incidência seja muito elevada no nosso país. Na verdade a ejaculação precoce é a uma das  disfunções  sexuais mais comuns e estima-se que um terço dos homens não se considerem satisfeitos com a sua capacidade para controlar o orgasmo.</p>
<p>Quase todos os homens ejaculam de forma prematura nas primeiras relações sexuais e só com o tempo e prática adquirem o controle necessário para atingir uma experiência mais gratificante e satisfatória. Contudo, muitos deles acabam por definir o seu desempenho sexual pelo tempo apreendido para chegar ao orgasmo, que passa a ser um mecanismo involuntário muito difícil de controlar. Alguns homens acabam mesmo por associar a ejaculação prematura a uma libido fogosa que assim manifesta a intensidade do desejo e excitação pelo objecto sexual.</p>
<p>A definição, causas e tratamento da ejaculação precoce são diversas e motivo de desacordo e controvérsia entre os especialistas. A característica comum a todas as definições é que o homem sente que tem pouco ou nenhum controle sobre o momento da ejaculação o que o leva normalmente a sentimentos de vergonha e inadequação. Esta problemática adquiriu maior importância social nas últimas décadas, em que a duração da relação sexual passou a ser mais valorizada associada ao enfoque no prazer sexual de ambos os parceiros em lugar da viabilidade reprodutiva.</p>
<p>São vários os  tratamentos para a ejaculação precoce. Os mais comuns são as intervenções comportamentais em que são prescritos exercícios para a ser realizados individualmente ou com a parceira(o) com o intuito de (re)aprender o controle ejaculatório. Estes exercícios são acompanhados por uma avaliação da história sexual e de desenvolvimento do paciente com vista a serem identificados conflitos ou desconforto com a sexualidade que possam estar a obstaculizar o desempenho sexual. O objectivo passa por incrementar a auto-confiança e a compreensão e diluição das causas que estiveram na origem do problema.</p>
<p>Outro tipo de abordagem pode ser realizada através da relação, avaliando-se a evolução da sexualidade do casal e a percepção que cada um terá do “problema”. A dinâmica da relação, as questões relacionadas com a sexualidade na família de origem de cada pessoa e o contexto sócio-cultural em que cresceram são outros aspectos a ser considerados. A prescrição de exercícios é focalizada na interacção entre os membros do casal.</p>
<p>Por último, pode-se recorrer a medicação como complemento do tratamento psicoterapêutico, sendo comum o recurso a  antidepressivos da categoria SSRI, que actuam sobre o mecanismo de recaptura de serotonina no cérebro e o Viagra. Tanto uma medicação como a outra de forma geral atrasam a ejaculação, embora como com todos os medicamentos, as respostas são variáveis e a escolha do medicamento deverá obedecer a uma avaliação cuidadosa por parte de um médico especializado nesta área.</p>
<p>Apesar da variedade de intervenções, o sucesso do tratamento nem sempre é garantido e as “recaídas” são comuns. Segundo um dos maiores especialistas na matéria, Derek Polonsky (2000), é fundamental compreender o significado da sexualidade para o homem, a sua capacidade para se sentir confortável na relação intima, e o papel que a ejaculação precoce poderá ter na dinâmica relacional. Polonsky sugere quatro tipos de ejaculação precoce: a Simples, a Simples e Relacional, a Complexa e a Complexa e Relacional.</p>
<p>A ejaculação precoce simples será a mais fácil de tratar e com maior taxa de sucesso nos resultados e permanência destes. Nos casos em que estejam implicadas questões relacionais, o tratamento é mais complicado e está dependente da colaboração da parceira(o), das suas questões individuais e da dinâmica do casal. Os casos mais complexos envolvem problemas psicológicos independentes das questões da sexualidade e implicam uma terapia mais complexa e de maior duração, quer a nível individual quer a nível do casal.</p>
<p>Referências:</p>
<p>Polonsky, D. C. (2000). Premature Ejaculation. In S. R. Leiblum &amp; R. C. Rosen (Eds.), <em>Principles and practice of sex therapy (3rd ed., pp. 305-332). New York: Guilford Press</em></p>
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